Raciocínio por fases

Aos 20:

Por que é que tem que ser assim?

Aos 30:

Não precisa ser assim…

Aos 40:

Não será mais assim!

Aos 50:

Quer saber? Estou pouco me lixando.

Anúncios

Apologia ao presente

Fundo fotografia desenhado por Freepik

Nos dias de calor ardo em anseios dissociantes
Por algo que não se desenha mais no horizonte crepuscular
A gigantesca frustração de tamanha expectativa
De uma mente doente, irrealmente imaginativa e vã
Mas tão necessitada de tudo o que almeja sem poder

Nos dias de frio me encolho para um estado de prazerosa doença 
Sob um cobertor que me protege sem que haja essa necessidade
Vitimismo persistente que insiste em me transformar em mórbido deficiente
Para todos os efeitos ou para efeito de causa e efeito
De todas as batalhas ganhas ou perdidas, não importa

Nas noites insones ou nas quais acordo de propósito, choro desconsolado
Mesmo que sem motivo, só para não perder o costume de lamentar
Talvez eu só queira expurgar algo que o subconsciente ainda não cuspiu
Viciado em emoção, maldito pateta, malditas escolhas, maldita insanidade
Bendito é o fruto de todo esse sofrimento auto-infligido sem limites

Mas nas manhãs, todas elas sem exceção, e com uma profunda inspiração
O choro, o frio e o calor me abandonam por um momento de sanidade
E me lembro que há um poder maior do que toda essa doença
E irmãos a quem recorrer se a carga for pesada demais
Indo e voltando mas não desistindo seguimos lado a lado

Quem poderia nos compreender além de nós mesmos?
Por que saberíamos algo além de tudo o que já vivemos?
Quem poderia nos desamparar se somos muitos e estamos juntos?
O crepúsculo chegará para nós, mas nunca nos surpreenderá solitários
Pois somos um e vivemos só um dia, a despeito do ressentimento e medo

E os dias continuam a ser bons ou ruins, muito bons ou muito ruins
Fora do controle tento aceitar o que me é trazido de bom grado
Pois vai passar, seja alegria ou tristeza, angústia ou euforia
Pois o passado e o futuro não são coisas reais para os olhos postos no agora
Repousam nas mãos de quem é maior do que eu e detém a supremacia

Espera

“O amor é o abandono da lógica. O abandono voluntário dos padrões racionais. Nós cedemos a ele ou o combatemos. Mas não há meio termo.” Steve – A Maldição da Residência Hill

Espero como um sapo nas bordas do pântano que a serpente passe
Como alguém que não aprendeu a lidar com a ameaça iminente
Espero pelo amor para que aconteça, sem tirar os olhos do mal
Espero pelo amor e ele me espera pacientemente e me chamando
Ao meu lado tentando me fazer enxergar que o mal está lá fora

Ao postar meus olhos no mal que me ameaça sem me ver aqui
Me transformo no que vejo, aquilo que focalizo com atenção
Então o mal que habita em mim toma seu espaço em minha alma
Pois o acaricio e alimento pelo medo constantemente relembrado
E então me torno o próprio mal, o monstro que mata o médico

Espero pelo amor e ele espera que eu desperte do meu pesadelo
Mas então pensei no amor, e ele não era suficiente para mim
Pensei em todas as coisas boas e elas tinham justificativas
Racionalizei tudo o que fosse afeto ou falta dele, e então me irei
Me pus a fazer em pedaços o que nem sabia estar ao meu lado

Espero pelo amor e ele espera por mim mas agora o que faço?
Esfaqueio violentamente aquilo que me era precioso sem saber
Que o que era precioso foi distorcido pela razão como abuso
Me sei agora mais forte, mais capaz e mais cheio de razão
Mas ainda espero pelo amor por mim ferido de morte

Esperava eu pelo amor, mas agora o reconheço claramente
E o que me faltava era apenas acolhê-lo sem julgamentos
Recebi o meu amor em meus braços e fui tratar de suas feridas
Por mim provocadas mas ainda aberto à cura da entrega irrestrita
Espero pelo amor para que se cure e torne-se vivo e belo

Hoje abro meus olhos para tudo o que seja diverso de mim
Pois não posso esperar pelo amor olhando para o meu medo
E já não espero, pois ele se manifestou em toda sua glória
Apenas me rendo e aceito o que só pode ser novo e bom
Espero por sabedoria para cultivá-lo com gentileza

Síndrome de Estocolmo

Um olhar penetrante nos olhos de seu captor
Belas recordações desperta da tenra infância
A violência de uma indução ao que era fora do tempo
A tranquilidade de uma tempestade solar

Em Estocolmo ou em Belo Horizonte
Traumas sindrômicos o mantém parado ali
Por uma tarde inteira
Por um ano inteiro
Por uma vida inteira
Sem saber exatamente o que está acontecendo

Todas as nuances de uma guerra fria
Ameaças de morte ditas em voz baixa
Com muita polidez
Longos silêncios tensos de insatisfação
Passivamente agressivos
Ou a alegre ignorância do cômodo bem-estar
Como se dormisse em Pompéia no dia do Vesúvio

As facas na cozinha cortando vegetais
Clamando por algo a mais
Mais carnívoro, intenso, verdadeiro
Ansiando por cortarem o ar afinal
E dilacerarem o elefante na sala
Sombras de um passado que se tornou presente
Lobos a uivar frustrados para o que nunca alcançam

E a segurança soturna da infelicidade ignorada
A envolver seu corpo carente de(s)amparo
E todas as tentativas de escapar ileso
Impedidas por alguma frase manipuladora
Tentando de novo da próxima vez
Um Napoleão rendido por suas próprias armas

Mas a revolução se aproxima
E há uma tonelada a ser lançada no ventilador
Tempo
Teme
Toca
Tombo
Da mais alta montanha de ilusão
Da mais tenaz tentativa de se agarrar
Ao sonho que findou
Ao que se transformou
Em algo que já não faz mais sentido
E se torna ontem
Hoje

Foto: Todd Forsgren

Amor e pronto

Amor. O mais puro e simples. Amor no colo de mãe, no olhar do pai, no sorriso da irmã, no beijo apaixonado do marido que decidiu para a vida estar com você.

Amor. Sem subterfúgios, sem meias-palavras, aquele que fala quando está com raiva e que corrige o caminho errado. Sem conveniência ou medo. Amor daqueles que se sentem seguros em amar e ser amados. Amor e pronto.

E tão procurado, tão almejado e definido, estudado, empacotado e padronizado. Tão distante e difícil, pelo fato de não ser amor. Amor é fácil, reconhecido sem palavras e está bem perto sempre. Logo ao lado.

Amor é saber que se está em casa, finalmente. É chegar e sossegar porque é confortável. Amor serve como uma luva. Amor me envolveu e cá estou, cercado por ele, vindo de vários lugares. E como o calor de uma lareira em um inverno sibério, o amor salvou minha vida. E é por isso que eu sei que é amor.

Alice e os lobos

Separado de tudo o que possa se chamar de humanidade
Faço meu caminho entre erros e acertos sem saber ao certo
Se um erro seria um acerto ou se padrões seriam ao certo
Coisas que serviriam para mim em toda essa sopa de letrinhas

Insights elaborados me vinham por vezes mostrando o caminho
Conduzindo a uma estrada de tijolos amarelos em direção ao abismo
Mas Alice me avisou para não tomar o líquido daquele frasco, o mais belo
E todas as vezes que eu o buscara o resultado foi o mesmo

Mas o que dizer dessa estrada infinita e que parece ser sempre a mesma
Quando nas vias de fato na verdade tudo é sempre novo e belo e horrendo
Mas esse tédio infinito, ah, esse tédio que não me desperta nada afinal
E me faz buscar em um abjeto objeto o caminho para a felicidade

Mas nem sempre é assim, e muitas vezes uma nova pessoa
Promete por si mesma ou prometo por ela simplesmente
A resposta para todo esse vazio que se aprofunda com o vácuo
Dos anos de busca e medo e angústia sem dimensão ou densidade

Descubro-me usando de subterfúgios mal arquitetados nessa tendência
A subtrair para construir e a usar de tudo e de todos para alcançar o nirvana
Sossego e desassossego em uma tarde ensolarada na cama olhando para o céu
Torcendo para que fique nublado para que combine com minhas vestes da alma

Mas o goticismo envelheceu e hoje o mundo sangra em cores vibrantes
E o sol brilha em meio a discursos positivistas de coaches e outros vampiros
E o vazio nunca foi tão grande, mas agora é politicamente incorreto ser suicida
E me suicido em silêncio para não ser ainda mais induzido ao suicídio

Mas sempre há uma gota de sabedoria nas palavras que nomeiam defeitos
Diagnóstico que começa a longa jornada para um tratamento seguro
Há de haver amparo para um lobo ferido entre outros lobos mais velhos
Pois minha matilha me cerca quando uivo pressentindo o perigo

Pois nos sabemos carnívoros, destemidos e assassinos vorazes de outros seres
Nossas presas ensanguentadas mostram quem realmente somos
Entre nós sempre haverá compreensão, entendimento e abrigo
Tal é a força daqueles que se despiram de suas máscaras de alvas ovelhas

Expansão territorial

E as escamas descamam dos olhos
Há tanto bloqueados por tempos
Aprisionados em percepções de outros
Com limitações próprias, alheias às minhas

Meus medos diminuem em progressão geométrica
Enquanto ouso admitir que estive preso
Por anos e em meio ao burburinho
De vozes que não mais fazem sentido

E começa o turbilhão que me tira do chão
E escuto palavras em línguas desconhecidas
E meu conforto começa a desmoronar
Assim como meus limites estreitos

Levanto meus olhos nus para um novo Sol
Em outro mundo e outra realidade e sei ao certo
Que eu jamais serei o mesmo, até que
Meus olhos se fechem para sempre

* Publicado em 12/12/2015 no Facebook.