Criança

Qual um choro de imensa saudade
É essa falta que sinto de mim mesmo
Culpo a ti, culpo o trânsito, culpo a lua
Nesse imbróglio de sentir tanta raiva
Lançando dardos contra o alvo errado

Qual meu corpo em um moedor de carne
É o resultado de tal distorção
Sob o sol impiedoso ou o frio implacável
Minha mente projeta terríveis tramas
Traição, vingança e violência gratuita

Me sento na praça e aos prantos rogo a Deus
Que me dê sabedoria e me tire desse estado
Em que ao olhar para ti, amor meu
Te odeio tanto quanto odeio a mim mesmo
E te rejeito com minha aversão própria

Escrevo cartas a mim mesmo
Tentando encontrar as ideias racionais
Que perdi ao longo do caminho
Nesse processo de evoluir até a psicose
E encontro enfim a verdade

Teu amor, criança minha que mora aqui
É a coisa mais doce que conheço
Te procurei por toda parte, fora de mim
Tu sempre estiveste aqui presente
Reprimida por quem vais te tornar

Pois vem pra fora
Desfrutar do teu próprio amor
O mundo não entende, realmente
Mas agora o sabes bem
E sabes fabricar o teu próprio mundo perfeito

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Palavras Vãs

Procurei por toda parte, tentando achar a sabedoria e a razão das coisas acontecerem, tentando provar a tolice da maldade, a loucura dessa vida tola.” Eclesiastes 7:25

Ando meio desconfiado. Os passarinhos cantam já sem encanto. E lá perto de casa tem um galo que canta o dia inteiro, como se quisesse acordar alguém que dorme de olhos abertos. Mal sabe ele que para despertar desse tipo de sono é necessário um grito dentro da alma, imenso, desses que não tem som. Um incômodo que tire as coisas do rumo para só então perceber que já não há rumo há uma eternidade. E por falar em eternidade, já não se sabe mais há quanto tempo o mundo vive às portas do desespero.

Ando meio assustado. Ninguém faz idéia de quem vive às portas do desespero. E isso é tão natural! Afinal, a natureza exata do desespero é não se saber nele, apenas sentir um vazio que hipocritamente é chamado vazio, pois é sempre uma imensa falta. Falta de algo que não se sabe o nome. Será que ainda sabemos nossos nomes?

Ando meio cansado. Sem nome, sem rumo, sem saber o tamanho ou a existência do desespero. O diabo está nos detalhes, e já não temos tempo para detalhes. Eles passam pelos cantos dos olhos, estimulando a mente, levando a conclusões precipitadas, precipitando medos peito abaixo, subtraindo vida e isso cansa profundamente. O amor se tornou uma frase dita levianamente, a beleza não passa de uma foto digital percorrida com o dedo dentre tantas outras, e o valor… ah, o valor! Esse se tornou relativo ou mesmo invertido, como se vivêssemos do outro lado de um espelho cinzento e deformado, nossa própria imagem e semelhança completamente modificada em nome de… em nome de quê?

Ando meio assim, no meio dos espinhos, os passarinhos já não vejo e o céu se fechou completamente. Não há nada de errado comigo, só não consigo perceber onde todo mundo se perdeu, ou onde perdi todo mundo. Vejo alguns que também enxergam o mesmo que eu, mas seria isso um consolo? Por que trocamos palavras vãs na tentativa de nos sentirmos melhor? Ou melhores que o resto do mundo perdido? Ou seríamos nós que estamos perdidos e o mundo deveria ser visto com mais bondade, se é que isso existe?

Ando meio pensativo, e pensamentos como esse, que liga o nada a lugar nenhum, mas me entregam, tolo que sou de colocar isso público, tentam desmentir o sorriso blasé e toda a minha conversa fiada de aceitar e tolerar e considerar tão comum toda essa loucura! São pensamentos assim que drenam, com esforço, lágrimas da alma que nunca chora, e chora por sentimentos vãos, mói pensamentos vãos e solta palavras vãs, ao vento, como se alguém fosse ouvir ou como se fizesse alguma diferença. Naufrago num oceano vão, sem querer me apegar aos destroços do navio da minha consciência castigada pelas ondas dos meus atos vãos.

E os peixes já não nadam em cardumes, cada um deles deve salvar sua própria vida. Mas continuam chamando a si mesmos civilização.

Filosofia de botequim (sem álcool)

Sinto, logo existo
Sinto?
Cinto?
Sem ti não sinto
Mas existo
Essa existência fraca e apagada
Inútil
Morta

Esse poema foi escrito em 1999, ao lado do D.A. da Biologia da UFMG, sem álcool ou canabinóides na cabeça, o que era raro naquela época, após um merecido pé na bunda. É um dos meus primeiros, e talvez o que mais tenho carinho por ele.

Bandeira Branca

O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol.” Eclesiastes 1:9

“Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades” Cazuza – O Tempo não Para

Tudo calmo. Lá fora, turbulência, gritos, ansiedade, rostos raivosos e medo, muito medo de tudo o que há de acontecer. Ressentimentos brotam claramente de cada rosto, cada gesto e cada tom de voz. O mundo explode em cores: vermelho sangue, amarelo fleuma e o negro do luto inconformado dos que perderam quem não deveriam ou poderiam nesse momento. Mas tudo calmo aqui dentro. Navegando sob um céu azul sem nuvens, em um espelho d’água, ou mesmo nas altas ondas dos ventos fortes e um lindo céu cinza-chumbo, mas com a certeza de não afundar.

Ouvi notícias de guerras infindáveis do outro lado do mundo. Li notícias digitais falsas lançadas para tomar o poder ao manipular as massas. Mas aqui nada se altera além das suaves curvas sistólicas e diastólicas, pequenos aborrecimentos, ligeiras ansiedades, algumas dívidas e outras tantas dúvidas. Mas nada me rasga as entranhas como de costume. Chama-se a isso maturidade, talvez. Ou seria apatia? Uma apatia branda, resultante de tantos socos tomados no estômago ou no ego, aquela canseira de todo dia ser a mesma coisa, sem muita novidade na terra dos viventes, ou um mundo de novidades recicladas, ou tendências retrô, como seria comercialmente mais interessante.

Sufocado pelos papos motivacionais, que antes queriam inibir as pessoas de sentir coisas negativas por repetir mantricamente pensamentos positivos, e agora oficializou-se o desenvolvimento pessoal por um bom preço a ser pago a coaches de qualquer coisa que se possa imaginar, sigo um pouco mais distraído. Entendi que se sentir miserável de vez em quando é mais saudável e me mostra o que pode estar errado, ou me mostra simplesmente que sou da espécie humana. A aceitação de que, quanto mais lido com as pessoas mais gosto dos animais, me salvou da cobrança por ser um pouco mais empático com o que não me identifico. Seria algo impossível, afinal.

Tudo calmo por aqui, porque o caos foi recebido com carinho por parte de quem nunca conseguiu botar ordem nele, mas aprendeu a se achar naquela bagunça. Levantar bandeira branca ao inimigo que se sabe mais forte, e ir embora tranquilamente, deixando para trás o campo de batalha vazio, a terra já saturada do sangue de tanta luta. Abraçar o lado sombrio de si mesmo, para que ele fique quieto em seu canto e dê lugar ao restante. Pois as sombras não devem ser combatidas, do contrário tomam conta de todo o espaço. Equilíbrio, talvez. Pois o equilíbrio não é a calma, e sim o balanço entre a energia furiosa do ser e o repouso tranquilo após o cataclisma.

Tudo calmo no meio da tempestade. E por um momento no meio do vento e da chuva forte você se aproxima e vê um sorriso nos lábios do homem alvo de toda essa turbulência. Isso não significa que ele seja inatingível. Significa que ele aprendeu que nada é irreversível.

Imperfeito homem livre

“O amor é mestre, mas é preciso saber adquirí-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de fato, não por um instante, mas até o fim.” Fiódor Dostoiévski

Um belo dia de esquecimento
Quando tudo o que se sabe do que se sabia ontem é que já não se sabe mais o que se saberá amanhã
Como nossas impressões de infância, quando parecíamos saber de tudo e adivinhar todo o resto

Imperfeito homem livre
Gloriosamente defeituoso sob o signo da falha despreocupada que se sabe que, em tempo, se aperfeiçoará em outras falhas menos torpes
Como a evolução, que traz a consciência de se ser menor a cada dia, por se saber medíocre simplesmente por ser humano

Água gelada na garganta
Que dói ao matar a sede por lembrar que se foi privado por tanto tempo de algo tão essencial, no choque com a sequidão que mata
Como o conhecimento ao se chocar com a ignorância, que o rejeita implacavelmente, pois a dor trazida por ele é imensa

Amor distante do sonho
Que mostra que a carência não será preenchida por ele, e sim pelo esforço de se doar a cada dia a quem está pelo caminho, sedento e faminto de tantas, tantas coisas
Como Francisco e seus bichos, Teresa e seus pobres, Fiódor e seus leitores e eu e meus irmãos, tão quebrados quanto eu

E o medo se distância
A arrogância morre de fome
A raiva perde o sentido
Quando se para de lutar
Contra o objeto de sua impotência
Para só então vencê-lo

Big Data

“Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa.” Nelson Rodrigues

Mais uma barriga tanquinho na sua timeline
Um sorriso forçado a desaparecer um segundo após o clique
Outro “tebetê” da única viagem internacional
Mais um comentário carregado de ódio / ironia / sarcasmo
Uma triste musa demonstrando alegria e plenitude
Um novo dia no planeta do big data mining

Enquanto essa tela não para de deslizar para baixo
E minha angústia não para de crescer até o pânico
Buscando algo real, algo que me mostre a verdade
Algo dentro de mim se rompe para sempre (amém)
Porque até as lamúrias são falsas e projetadas
Com o intuito de gerar alguma reação manipulada

A barriga tanquinho vende alguma droga
O sorriso forçado e o “tebetê” vendem a alegria e a riqueza
De uma vida que não é o que parece
O comentário vende uma inteligência fabricada
Pela replicação de outras idéias
A musa vende suplementos e hormônios
E tudo, absolutamente tudo, será processado
E convertido no vil metal
Que nem mesmo de metal é mais

Quero tomar sua mão e fugir do planeta
Estar perto, sem uma tela no meio
Estar no meio de você, sem uma luz
Tocar a realidade da carne humana
Sentir a fúria da alma humana
Beber a doce saliva humana
E explodir em gozo inebriante
Quero o prazer offline de tocar sua pele
E o rosto carrancudo mas real, que tanto amo

E quero me levantar, coberto de suor
E ver o fim de tarde, sem precisar fotografá-lo
Sorver o momento e me satisfazer
Por ter curtido sem ser curtido
E sentir o momento sem que saibam meus amigos

Com minha barriga proeminente
Viagens para uma cachoeira próxima
Comentários dos amigos numa mesa
Sorrisos espontâneos da alegria de vê-los
Tudo aquilo que o dinheiro não pode comprar
Tudo o que o wi-fi não tem como transmitir
Pois nem tudo o que reluz é ouro
Amor, prazer ou plenitude

Silêncio

Foto: Daniel Bücker.
Ipê rosa na Praça da Liberdade em Belo Horizonte ao crepúsculo.

Olhando para o alto, o azul de meus olhos encontrando o azul do céu intenso, um sorriso abobado no rosto e o frescor do vento no rosto. A impressão de que não existem mais problemas e tudo na vida se tornou fácil, sem me lembrar da tristeza que um dia já assolara meu peito, e tudo, absolutamente tudo, é novo e cheira a livros novos ainda quentes do prelo. E aquela sensação de explosão violenta no peito da mais pura felici…

Não! Ela não se parece com nada disso para mim. Nada a ver com a euforia estranha e mórbida da juventude, acompanhada de um rufar de tambores e um desfile militar cheio de cores. Assim como o amor não se parece com aquele sonhar acordado cheio de sonhos megalomaníacos e flores vermelho-sangue sobre a cama, os lábios de um hálito fresco tocando os meus a cada início de um lindo dia. A felicidade não me pega na terra e me leva para a superfície lunar em dois segundos, o peito cheio de angústia pela aceleração de todo o meu intelecto e o choque dos neurotransmissores em seus respectivos receptores.

Não se parece nada com uma propaganda de cerveja, onde pessoas sóbrias sorriem vendendo uma alegria que só o cachê que receberam pode proporcionar, ou com a propaganda de margarina onde a família perfeita comunga harmoniosamente e sem pressa seu pãozinho francês, nada dizendo sobre a discussão da noite anterior, e da anterior a esta. Não é como chegar ao trabalho em um carro do ano, usando um terno italiano perfeitamente cortado e ser cumprimentado por todos com respeito e admiração, pois você atingiu o topo da cadeia alimentar.

Fogos de artifício, uma colherada enorme de brigadeiro na boca, aquele orgasmo mais intenso depois de semanas sem sexo, um banho quente no frio, urinar quando se está com muita vontade, uma dose de cocaína, uma gargalhada de uma comédia, tudo o que há de mais intenso e delicioso, nada se parece com a minha felicidade. Depois de anos a persegui-la incansavelmente como um maníaco, nas coisas mais fortes que pude encontrar, na simplicidade e na complexidade, percebi que fui ludibriado pelas aparências dos momentos de prazer. Não. Prazer não é felicidade.

Minha felicidade se parece mais com o silêncio após fechar a porta. Andar pelas ruas sem pressa, prestando atenção a cada detalhe do céu ou das pessoas. É aquele momento em que me deito no sofá sem pensar em nada, e os gatos me fitam em silêncio. Prestar atenção a um filme e realmente só pensar no filme. Sentar-me para jantar em família, e conversar sobre bobagens, comendo aquele arroz com feijão de todo dia, mastigando com calma, sem pensar se hoje é segunda ou sábado.

Felicidade é aquela paz interior quando tudo está agitado por fora. Não. É menos que isso. Felicidade é paz. Não sei se no dicionário está assim, mas deveria.