Pessoal · Ponto de Vista · Reflexão

Sobre valor

Ultimamente tenho lidado com a questão do amor próprio, e como me afeiçoar aos outros pode ameaçar minha própria auto-estima. Isso pode não ser importante ou mesmo não fazer sentido para quem sempre foi bem resolvido ou quem olha para mim e diz: “Ah, você é padrão de beleza, não sei do que está reclamando.”.

Bom, não é tão simples assim.

Percebo que há um jogo do desinteresse acontecendo nas relações, especialmente entre homens. Parece que o mais inacessível se torna o mais interessante. Mostrar interesse é parecer desesperado, e por isso todos representam um papel bem blasé, tentando não parecer que procuram desesperadamente alguém com quem partilhar a vida. Isso é tão ridículo como rotineiro e assim segue o ciclo da arrogância e da solidão. 

Há quem pense que para se valorizar a aparência é que manda, dá poder. Nada mais natural, em um mundo em que seus posts e selfies definem quem você é (não estou julgando, eu faço muito isso) , em detrimento do conteúdo, da alma e das coisas que se transmitem pelo olhar e pelo toque. É uma grande perda para a nossa civilização. 

Algumas vezes, na minha cabeça ingênua e romântica, fui vítima desses joguinhos de aparência / desinteresse. Mas isso só me fez voltar para mim mesmo e descobrir que, em meio a todo esse ouro de tolo espalhado por aí, há um diamante lapidado pela experiência de doação e decepção aqui, dentro de mim.

Nasci carregando o transtorno da bipolaridade. Levei anos para me adaptar e começar um tratamento eficaz. Sobrevivi a uma doença grave que quase me levou à morte e exige disciplina todos os dias até o meu último. Sou inteligente, rápido e excelente profissional. Envolvo a todos com um afeto incomum e reúno à minha volta pessoas das mais diferentes origens, porque sei encontrar pontos em comum entre elas. Peguei todas as minhas tragédias e as transformei em ensinamentos e até piadas. Sou duro, mas muito duro de roer e carinhoso até com quem não merece. Sei exatamente o que está acontecendo em meu corpo nesse exato momento, e consigo conciliar tudo com o entendimento a respeito do espírito.

Isto posto, digamos que, quem se conhece nesse nível, não vai se deixar levar pela crença de que precisa se esforçar por quem não tem maturidade para assumir o que quer. Sejamos honestos: eu mereço muito. Você merece muito. Não permita que pessoas que tentam se valorizar tentando se mostrar superiores com joguinhos imaturos, roubem de você a sua essência, ou a façam esquecer.

Quem sabe apreciar o seu valor, merece ser valorizado. Quem não sabe, representa rejeito, lixo. Faça a si mesmo um favor: leve o lixo para fora.

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Pessoal · Poesia

DOIS GAROTOS

Se ao menos eu pudesse
Catalogar todas as coisas lindas e tocantes que você me mostra
Seus olhos que brilham como lágrimas de luz
Seu sorriso no qual me perco e então
Já não sei mais onde me encontro
Já não sei mais se quero me encontrar

Corpos imperfeitos numa cama imperfeita
Em um momento perfeito de quase morte orgástica
Nossas peles se fundindo com nossas almas
Numa luta onde ninguém perde
E o repouso para ouvir sua voz calma
Como se nada houvesse a temer

Um sopro de vida inunda minha alma
Ao ouvir que sou seu e dizer que você é meu
Não contratualizado, apenas dois garotos numa praça
E nossas experiências, nossas famílias, nossas tentativas de sobreviver
E nossos medos já sem significado
Se encontrando sob as luzes da cidade

Aquele que não cogita o amor
Mas que me traz à superfície
Com um pedido velado por afeto e prazer
Aquele que me reconhece como alguém
Que pode tirá-lo do eterno ciclo
Sem promessas, mas entregando tudo

Pois nada conosco é pesado
Nada será cobrado
Pois esse é o pacto da doação voluntária
Nos entregamos naturalmente um ao outro
E ninguém pode nos tirar de onde estamos

Já não nos assustamos mais com a velocidade
A hipocrisia ou a intensidade
Já enfrentamos isso antes
Só precisamos saber, afinal
Quando será a proxima vez
E o quanto de nós doaremos então

Conto

MEMÓRIAS DE UM GAROTO ESTRANHO (PARTE 1)

O lugar cheirava a fumaça e perfume, com uma suave nota de perdição. Havia um cheiro de liberdade no ar, misturado a uma angústia pungente e irresistível. Sim, irresistível pois seu coração seguia como um carro desembestado em direção ao drama, à tragédia. E, por que não, em direção ao amor?

Isso aconteceu nos anos 90. Ele conseguia um dinheiro com os pais e ia passar a noite dançando e buscando beijar os homens mais atraentes que pudesse encontrar (e seduzir) do alto dos seus 17 anos. A curiosidade o movia como gasolina e nada, absolutamente nada iria impedi-lo agora que ele sabia que havia um lugar onde ele podia ser ele mesmo, não se esconder, ir ao encontro dos seus iguais. Amigos avisaram que isso era uma forma de viver em um gueto, mas para ele, se esse era o preço a ser pago pelo prazer que tanto buscava, era justo.

Naquela noite, ele foi o primeiro a entrar. A pista era rebaixada em relação ao resto do piso da boate, de forma que se tinha a impressão de estar numa arena. A excitação percorria seus membros como eletricidade, e ele pediu uma taça enorme de licor de menta com gelo (não gostava, mas os mais velhos bebiam, então devia ser a coisa certa a fazer) e se dirigiu direto ao centro da pista. O DJ tocava algo eletrizante, ele não conhecia a banda, mas o fato é que começou a dançar como se só houvesse ele no mundo. Era como se sentia, e estava bom assim, por enquanto.

A casa foi enchendo e ele começou a paquerar algumas pessoas. Ele não sabia ainda, mas o que acontecia era já um hábito: as pessoas mostravam interesse mas depois não olhavam mais. Era chamado “carão” e era típico do início da noite. Objetivo? Manter sob vigilância aquele cara interessante, mas ver se há outros melhores antes de tentar se aproximar do (s) primeiro (s). Ele não sabia ainda, mas essas e outras coisas partiriam seu coração ainda por muitas noites e dias ao longo dos anos.

Lá pelas tantas, aconteceu um fato curioso, parta dizer o mínimo. Ainda sem ter ficado com ninguém, ao passar perto de uma das mesas laterais, um senhor idoso o chamou. Ele era bastante afeminado e muito magro, a pele bastante vincada e quase completamente careca, a não ser por uns tufos grisalhos acima das orelhas. Mas havia algo em seu olhar que parecia ser a própria imagem da decadência. Um pouco de má-vontade, por pensar que seria uma cantada, ele se aproximou para ouvir melhor naquela barulheira. Então o homem disse, passando a mão carinhosamente em seu rosto:

– Tão bonito! Como você se chama?

– Rodrigo.

– Ainda não conseguiu ninguém essa noite Rodrigo?

Ele riu sem-graça e respondeu:

– Não, ainda não.

O homem suspirou com um ar de nostalgia e pena ao mesmo tempo:

– Ah, vocês nessa idade são tão cheios de esperança, brilho e ilusões de glória! É pena que o futuro seja tão sombrio e solitário. Vá, meu menino, seja feliz enquanto você ainda tem a sua juventude! Aproveite suas ilusões de amor e glamour, pois elas são o que de melhor você terá. Encontre o seu príncipe encantado dessa noite, antes que você se canse dessa procura mais tarde. Divirta-se!

Aquilo foi um golpe tão violento e frustrante, que até o efeito do álcool passou. E Rodrigo ficou alguns minutos agarrado à grade que circundava a pista com seus pensamentos na velocidade da luz. Quem era aquele homem para dizer aquelas coisas? Pelo que teria passado? Será que estamos todos condenados mesmo a uma vida de solidão e uma velhice de isolamento? Teria isso alguma relação com o que a bíblia dizia sobre “eles serão responsáveis pelo sua punição”? Estaria ele entrando em um caminho amaldiçoado e vazio?

Pagou e saiu da boate sem nem perceber. Olhou para o letreiro de neon vermelho: “Fashion”. Estaria ele jogando seu futuro fora por moda? Mas havia algo além. Não era só a diversão que o levava ali. O cerne de tudo isso era que desde os nove anos, mais ou menos, ele sentia que era diferente dos outros meninos. Sentia amor e atração pelos outros meninos, e isso só se fortalecia desde então. Estava em paz com isso, apenas um pouco confuso, até que um dia encontrou “aquele livro” escrito por um pastor anos antes. E o livro dizia, com base na bíblia, que ele precisava negar a si mesmo, não agir de acordo com seus impulsos e se entregar a Deus, para não receber a condenação.

Havia sido muita informação para seus quinze anos! E agora aquele homem… Sentia-se tão confuso que queria correr dali para algum estado de inconsciência, esquecimento, inexistência. Não. Precisava ir para casa e dormir. Só dormir.

Sem categoria

O CAMINHO DE VOLTA PARA MIM

Lembro-me dos dias antigos; considero todos os teus feitos; medito na obra das tuas mãos. Salmos 143:5

Engraçado como nossa rotina e demandas tendem a nos enlouquecer. Na verdade, o que percebo é que estamos nos afastando de nós mesmos, nos esquecendo de quem somos.

Ontem na sessão de terapia uma pergunta recorrente em meu processo voltou à tona: o que você gosta de fazer? Aparentemente, uma pergunta fácil de ser respondida, se não fosse por uma palavrinha impertinente: eu. Percebi que nós (eu e meu namorado) gostamos de fazer muitas coisas. Assistimos seriados, lemos ficção, jogamos Magic e chamamos nossos amigos para um joguinho, um filme e uma pizza.

Mas onde eu tou eu? Se eu precisar funcionar sozinho, o que farei para me divertir? Do que EU gosto?

Pois bem, percebi que a busca dessa resposta vai me levar em uma viagem de volta no tempo. Houve um tempo em que só havia o Daniel, apenas essa pessoa, e ele gostava de coisas que eram só dele, coisas que não foram perniciosas, de um tempo em que costuma-se chamar inocência.

Não me refiro à infância. Até porque na infância ainda se está em formação e também não necessariamente se é inocente. Na verdade é preciso resgatar o prazer sem o filtro das exigências sociais, o espontâneo e puro. Aquilo que eu realmente gosto de fazer, porque fui feito daquela maneira: não me forcei a ter aquela atividade, e ela também não me foi sugerida. Algo que veio de dentro, dos meus anseios e desejos.

Pois bem, é uma longa viagem. E vai me levar a outras perguntas. Mas angústias e perguntas irão me aconpanhar enquanto eu estiver vivo, não é mesmo? Então porque não começar? Portanto, se quiser me encontrar, estarei lá no passado, procurando por mim. Só assim posso construir um futuro mais sólido.

Ponto de Vista · Reflexão

ATITUDE

O Brasil acabou de perder para a Alemanha nas semifinais da copa do mundo por 7 a 1. Por mim, tudo bem. Eu realmente não ligo para futebol. Assistimos na casa de uma amiga, e depois de 30 minutos de jogo agente só queria bater papo e olhar nas redes sociais a reação das pessoas. E isso sim, foi interessante.

Os post mudaram automaticamente para política. Automaticamente. É impressionante como todo mundo quer reclamar de alguma coisa. Quando ainda estávamos ganhando, muita gente dizia que a Copa havia sido comprada para o Brasil. E agora? Agora vamos nos lembrar das vítimas do vexaminoso acidente em que um viaduto inteiro caiu às três horas da tarde aqui em Belo Horizonte. Agora vamos nos lembrar da lama que assola a política desde a esfera federal até a mais longínqua biboca no interior esquecido por Deus. Bem, eu espero que isso reflita nas urnas daqui há apenas três meses. Mas a memória é curta.

O fato é que sempre queremos reclamar de alguma coisa. Mas eu gosto de me lembrar de uma frase de John F. Kennedy: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país.”. Pois é, acho que isso eu posso citar, pois é assim que procuro viver. Sou funcionário público, e o sistema me favorece demais. Se eu tiver malandragem o suficiente, posso sugar muito sem oferecer nada. Mas, pasmem, não só eu mas a maioria de meus colegas está trabalhando para fazer com que cresçamos, e a população tenha acesso a uma saúde decente.

Atualmente tenho lecionado em uma cidade do interior, tentando oferecer a melhor formação técnica possível para pessoas que há pouco tempo não teriam acesso. Nesse ponto, preciso dar os parabéns ao Governo Federal, que abriu essa oportunidade, embora continue achando que os ensinos fundamental e médio estejam jogados de lado. Eu sou um herói? Não, faço isso por dinheiro mesmo. Mas faço também porque acredito na educação. Estou citando isso aqui, não para me fazer de exemplo: eu faço o que posso. Mas cito isso porque isso para mim é atitude. E o que nos falta é atitude.

Vamos citar o “inimigo”: a Alemanha se recuperou de duas guerras mundiais e mais tarde da unificação com um país atrasado cinquenta anos pelo menos, a Alemanha Oriental. Sem esquecer do Japão, que além das guerras, precisou lidar com as conseqüências de bombas nucleares em seu território. O que fez a diferença? atitude! O que você sente quando vê um obstáculo? Desânimo? É normal. Mas como você age em relação a isso? Se você se lembrar que um obstáculo pode ser vencido, então deixa de lado o desânimo e age.

Já passei por poucas e “boas”, e muitos me disseram que não aguentariam passar pelo que passei. Quer saber? Nem eu! Mas o foco não é no que eu sinto. É no que eu posso. E ação é poder. Então, que possamos agir TODOS OS DIAS. Isso faz a diferença. Atitude não é para os fortes, afinal os fortes também morrem. Atitude é para quem continua, de sol a sol.

Conto

Fragmento de um conto não contado

Ela seguia pela rua escura. Olhava para trás a cada 5 minutos. As mãos estavam frias, o coração acelerado, tudo parecia incerto. Como foi que tudo aconteceu? Como aquilo poderia estar acontecendo com ela? Belo Horizonte era fria naquela época do ano. Virou à direita em uma rua estreita e saiu na Pedro II.

22 horas e 1 minuto. Por quê aquele 1 minuto a incomodava? Não sabia. Não tinha tempo para pensar sobre isso. Continuou caminhando, dessa vez sem rumo. Precisava continuar, precisava seguir em frente. Os carros passavam rapidamente, e a assustavam. Seguia sem destino porque lhe parecia que não havia mais lugar no mundo para ela. Mas não estava com medo. Apenas apressada, não queria ser vista ou reconhecida. Aquele era o lugar perfeito, nunca andava por aqueles lados. Aquela era a pior cidade para fazer aquilo. Um ovo, todos se conheciam.

Seguiu em frente e sacou a arma da bolsa, escondendo-a no coldre sob o casaco. Algumas pessoas a incomodavam ali, não queria estar desprevenida. Era durona, aquela ali. Graduou-se na academia da Polícia Militar com um desempenho superior a todos os seus colegas. Era metódica, disciplinada, incorruptível. Isso não podia estar acontecendo, Deus, não podia! Era um pesadelo do qual não conseguia acordar. Então seguia, indefinidamente, mas estava quase chegando ao complexo da Lagoinha. Precisava tomar uma decisão, definir um rumo. Olhou à esquerda, uma prostituta. À direita um travesti mexia com ela, alguma coisa com “concorrência”. Concorrência? Estava decente! À frente, homens mal-encarados em um movimento suspeito. Um deles se aproximava. Levou a mão à arma. Então, uma dor na nuca, um clarão e a escuridão.

Esse texto é um fragmento de algo maior, ainda não planejado. Se você tem alguma opinião, compartilhe! Em breve saberemos mais sobre a história de nossa heroína (o antes e o depois).

Ponto de Vista

BIPOLAR

“Agora eu vou botar pra quebrar! Vou lá e faço. Aaaah, faço! Eu vou dizer isso e isso e isso, esfregar na cara dele tudo o que estou pensando. Como ousa? Estou indignado com essa história. Cheguei, enfim. Lá está o miserável. Opa, ele sorriu… Bem, até que não é bem assim como eu estava pensando. Considerando a situação, preciso ser razoável. Certo, então vamos conversar e se for oportuno eu digo tudo o que está engasgado.

E as mãos tremem, o sentimento parece impossível de reprimir (embora amenizado agora) mas os efeitos colaterais ainda estão presentes. Ansiedade, preocupação, sentimento de idiotice. Plano abortado.”

Só quem se identifica com isso sabe o que é ter os sentimentos fora de controle. A crescente necessidade de se encaixar na sociedade, versus o mundo que se passa dentro da cabeça. Sofrimento constante e falta de parâmetros, muitas vezes, para saber o que é real. Dá para pensar que a loucura está chegando, mas quem é louco não sabe disso não é? Então o que está acontecendo?

Bem, essa resposta procurei por muito tempo em igrejas, consultórios de psiquiatras e psicólogos, meus pais e meus amigos. Na verdade, é difícil dar um nome para tudo isso, e o nome que existe é insatisfatório: transtorno bipolar. Hoje “na moda”, quando fui diagnosticado a onda era a depressão. E tome anti-depressivos, e uma galera dizendo que eu era muito novo para isso, deixa disso, e o medicamento me causava euforia e ansiedade, até que pum! Larga tudo isso para lá e vamos adoecer de novo enquanto o resto do mundo continua muito bem, obrigado.

O grande problema dos transtornos psiquiátricos, é que são tratados com muito preconceito, ainda hoje. Ou é demônio, ou é coisa de rico, ou então “não vou ficar me entupindo de remédio”. Parece que ninguém condena o remédio para gastrite ou pressão, e se esquecem que o cérebro também é um órgão. Um órgão nobre, mas é um órgão. Mas não quero fazer aqui apologia da terapia medicamentosa per se para o tratamento dos transtornos psicológicos. Lembrando que o cérebro não depende só de neurotransmissores, a psicoterapia, mudança dos hábitos doentios e a informação são essenciais para o tratamento desses males.

Hoje continuo vivendo altos e baixos. Quem não vive? Mas agora é suportável. É possível escrever sobre isso enxergando o teor cômico, mesmo que não hora não tenha sido. É possível recuperar o controle do que se sente, e seguir em frente tendo uma vida, bem, quase normal. A verdade é que, quando se toma as rédeas da situação, sobram as outras consequências da doença: uma capacidade além do normal de ousar, pensar diferente, se divertir vendo os “normais” que te acham estranho levando 10 vezes o tempo que você leva para completar um raciocínio. Pois afinal de contas, EU QUERO ENFIAR UM SOCO NESSA SUA CARA DE SONSO, mas acho melhor não.