Barragem

Quero chorar desconsoladamente. Copiosa, desmedidamente. Pois o que é esse peso em meu peito, senão uma torrente de lágrimas presas pela barragem de um coração que aprendeu a negá-las?

Quero chorar abundantemente. Mas não sei chorar, pois aprendi a correr para a mente. E em meio a tantas racionalizações encontro explicação para cada coisa que sinto em busca de paz. E a encontro, para então perdê-la novamente.

Quero chorar, um pranto farto e alto e cheio de soluços deselegantes e escandalosos, enquanto despedaço as paredes aos socos e rompo as minhas paredes. E finalmente mostro ao mundo o tamanho da dor que ele nega, assim como me ensinou.

Quero chorar, porque doce é o gosto do sal das lágrimas. Amargo é o ódio, a falta de amor desse mundo estranho, que reduz as pessoas a pecinhas em sua engrenagem. E já vi mais de um ser amado tragado por esse horror, que é se anular tentando mostrar sua força. Que força?

A força são as lágrimas. A força é conhecer minha fraqueza, e respeitá-la. É não tomar anabolizantes para os músculos da alma, que apenas incham, destruindo todo o resto. A força é me saber fraco e me render a quem pode mais do que eu. Minha força é minha entrega, aos prantos, ao único Pai que sei perfeito. Ele sabe me fazer chorar, para me dar o alívio ao final.

Quero chorar pois só o choro vai me fazer sorrir de novo. Apenas vazio posso receber aquilo que é novo, e belo, e que me é caro. O que eu quero, afinal, é me saber inteiro. Então destruo o edifício condenado, para só então construir uma moradia perene.

13 respostas em “Barragem

  1. Ah esta paradoxalidade humana!! Tão divino e tão humano até o ponto de ser até mesmo menos que o próprio humano. Mas, nossa parte divina prevalece…

  2. pois é, Daniel, teus textos têm me trazido muitas vivências deste meu caminhar por aqui. gosto da tua intensidade, esse coração pulsante que nasce na alma, passa pela corrente sanguínea e deságua nos poros, nos olhos. interessante que eu, para sobreviver ao câncer, tive que me descontruir e me construir a cada dia, ir ao extremo e me pacificar por dentro, sentir a dor mas compreender que sem ela não estaria aqui, e esses tempos mais pedi para ser racional e de novo compreender que os alicerces estavam na consciência do momento. chorei apenas uma única vez: quando acordei na CTI após a cirurgia. estava vivo e a vida me chamando para reconstrução. desculpe escrever tanto sobre a experiência vivida, mas teu texto muito sensível alcançou meu dias de força, e de esperança. tens isso em ti, Daniel, tua palavra é muito rica e forte. o meu abraço.

    • Fernando, eu nem ouso imaginar o que é lidar com algo como um câncer. Minha doença é de cunho mental, e é difícil sim, mas é outro processo. Me sinto profundamente gratificado por trazer vivências boas para você. O que escrevo é só a minha alma falando, e sou tão crítico de mim mesmo que às vezes nem sei se são coisas boas. Por isso seu comentário me faz muito bem. Mas é do compartilhar do ser humano né? Ainda bem que a gente se permite expor e comunicar essas coisas. Um grande abraço, meu querido!

  3. Não há muito o que dizer depois de ler e reler este poema, novamente ler. Pois a cada leitura tantos sentimentos afloram. Uma alma despida em meio à tanta insensibilidade. Esta é a maior força que um ser humano pode ter! Lindo, emocionante e para ser sempre lido. 🙏🏼

  4. Pingback: Barragem – O PODER DA LEITURA

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