Autobiográfico

“‘Cause darling I’m a nightmere dressed up like a daydream.” Taylor Swift

O céu negro irrompe ao abrir de olhos em mais uma manhã fria. É difícil não admirar o céu de estrelas elétricas aos pés do morro. Tateio pelo lugar que conheço bem, em busca de café, marmita, cigarro. Encontro alguma paz no cheio forte da caixinha de areia dos gatos. Ninguém me observa, ninguém testemunha minha monótona rotina, ou imagina o que explode nessa hora em meu cérebro inquieto.

Os fios soltos dos novelos de ontem começam a ser puxados por gatos malignos e indiferentes, trazendo tudo para fora. E ciclos intermináveis de argumentos e contra-argumentos furiosos. Peito em brasa, viagem em loop temporal, me distancia do presente. Apenas o passado e o futuro, o passado e o futuro, o passado e o futuro. A angústia e a euforia ciclando infindavelmente até a exaustão que não chega.

Por fora, apenas um homem sentado na mesinha de madeira da varanda.
Bebericando um café e dando mais um longo trago no cigarro de filtro amarelo. Fitando um gato branco de olhos arregalados (será que ele enxerga pensamentos?), e a luz vai gradativamente aumentando sem que eu perceba ou permita. O dia vai nascendo impetuosamente sem pedir licença para quem surta. E a cabeça pende de olhos fechados com um murmúrio nos lábios:

Deus, ajuda-me. Aquele dia naquela conversa eu… Mas então não saberia se… Por que não disse… Por que não disse não, e parei o fluxo de… Estando eu ali não sei se… Alguém me reprime. Alguém tenta estabelecer seu poder sobre mim. Mas já não sei se é bem isso, ou se a minha realidade está distorcida. Onde perdi a referência? Como voltar? Tira de mim essa dor. Tira de mim antes que eu tire de vez.

E ainda nem são seis da manhã. Hora de sair para o trabalho, embaixo do chuveiro o cheiro de sabonete. Delicioso.

Perfumada está a alma. Com os pensamentos todos em seu fluxo organizado e a clareza de quem colocou o caos à luz da consciência. Já se passou um ano desde que as manhãs começaram a ficar assim. E a realidade agora dista dos pesadelos acordado, e o presente é vivido plenamente por quem se cansou de sonhar e de se lembrar. E o sol se impôs ali no céu. Enquanto seguir esse caminho, nada terei a temer.

4 respostas em “Autobiográfico

  1. sempre tive uma relação com a noite como um encontro. é o momento em que consigo estar comigo e me reconstruir, mentalizar o eu tenho que fazer, enfim, me reconstituo e quando chega o amanhecer vibro como um gol do meu Internacional, ou seja, é o novo para o qual me preparei. dará certo? não sei, o que sei é que fico consciente para o virá. textos como o teu deste post é uma viagem para dentro que tem como efeito a restauração desse dentro. muito bom, Daniel, não para de escrever. um grande abraço.

    • Não paro não Fernando. Pra mim o mais rico é a identificação com outro ser humano com base nas coisas mais profundas: é onde somos parecidos. E você com a sua transparência me dá um retorno muito precioso. Obrigado, obrigado, obrigado!!! E agora eu sei que você torce para o mesmo time que meus primos.

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