Crescer

Leva um longo tempo para se percorrer os caminhos de volta dos enganos nos quais se acredita por tanto tempo. É preciso uma boa dose de boa vontade para descortinar as negações mais profundas que impedem de se ver tudo aquilo que precisa ser tratado, como uma bandagem bonita sobre uma ferida infecta que já não dói mais no local, mas gangrena já um membro inteiro. É preciso coragem para largar velhas crenças limitantes, que já se tornaram grades brilhantes de uma prisão confortável. Talvez, só talvez, tudo isso poderia ser ignorado por já se estar acostumado a carregar umas arrobas a mais nos ombros, pois a corcunda já está bem calosa e afinal, quase todo mundo vive assim. Mas não pra mim.

Todos os dias enxergo um novo obstáculo, que para ser superado exige que eu largue alguma coisa muito difícil de se abrir mão. Difícil no nível de se perder um olho, ou algo assim. Só que não é nunca um olho, mas uma lente colada sobre ele por anos. Por isso dói. Mas enxergar melhor vale a pena. Só não se sabe antes de tirá-la que vai se poder enxergar sem ela. Todo esse processo desgasta, e ao se arrancar a cola, as feridas que ficam levam um tempo para se fechar. Mas elas se fecham, deixando uma cicatriz feia, mas forte e protetora. E o desgaste dá vontade de parar a caminhada. Viver em constante reforma é viver em constante destruição, antes da reconstrução. Então de vez em quando se dá uma folga para os pedreiros.

Mas chove. E venta. E ladrões levam embora o material de construção, e os muros desprotegidos podem ruir. Não dá pra parar. Não dá pra deixar pra depois um crescimento que deve ser constante, ou pode-se perder tudo o que foi feito. Trabalhoso. Cansativo. E não existe caminho de volta, apenas para o fundo de um novo e desconhecido poço. Descansar talvez um pouco, mas seguir em frente sempre, é pré-requisito para não se perder.

Sempre acreditei que tudo isso fosse sobre o amor. Mas é sobre conhecimento. E abandono do controle. E enfrentamento de medos. O amor é uma consequência. A cereja do bolo.

Hoje entendo que não sei de nada, realmente. E quando achei que sabia, parei de aprender. E parar de aprender é cegueira, surdez e insensibilidade tátil.

Denso? Não, é simples. Apenas abaixo da superfície.

11 respostas em “Crescer

  1. Muito bom! Todos os dias “descremos” para “crermos” novamente. Como bem disse, destruir para reconstruir! Não dá para parar, só para um breve descanso. Se o pedreiro faltar, contrata outro; se chover, não esqueça o guarda-chuvas. E vc sempre expondo com tanta lucidez e coerência!

  2. Reflexão magnífica! Parece que estou em momento parecido… Dói e muito! Fico insegura com a percepção de que nada sei… Mas saber que existe um Guerreiro do seu naipe enfrentando desafios idênticos me dá ânimo. É apavorante desapegar sem saber o que pode resultar… Mas não tem outro caminho, já nos comprometemos. Agora é erguer a espada e combater o Bom Combate!

    • É isso mesmo! Desapego é libertação. Não dá pra voltar atrás, e a recompensa é certa. Cada vez mais eu percebo que andar na contramão é o sentido certo. Obrigado pelo comentário guerreira!

  3. a vida é sempre uma surpresa atrás da outra e viver é realmente aprender tanto abaixo quanto acima da superfície. o mais doloroso talvez seja o momento que compreendemos que chegou a hora de crescer e o acima da superfície é muito maior do que havíamos imaginado. gosto das tuas reflexões, me deixam em paz dentro de mim. um grande abraço.

    • Que bom que lhe causa paz, Fernando! Tenho estado tão sem tempo que esse eu escrevi no metrô, voltando pra casa, sem me preocupar muito com o formato. É bem do meu momento mesmo. Um abraço grande!

  4. Daniel…senti tua falta. Seu texto, elegante e reflexivo. Sabe que te entendo? Sabe que sinto o mesmo? Não sei se ajuda, mas não está só!. “Difícil no nível de se perder um olho, ou algo assim. Só que não é nunca um olho, mas uma lente colada sobre ele por anos”…. Dolorido…mas também prefiro este caminho. Em Matrix, também escolheria a pílula para enxergar…Abraços de “debaixo da superfície”.

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