Metamorfoses

Pequeno surto a respeito do texto As Três Metamorfoses de Nietzsche, em A Gaia Ciência.

Tentativas de chegar ao ponto em que todos estão, de ignorar os sinais mais óbvios de que as soluções fazem parte do problema, frustradas. Frustrado por não fazer parte da maioria, tentando encaixar uma peça quadrada num encaixe redondo, e tirando a arestas para caber. A peça não é para aquele buraco. Não importa quantas vezes você tente. E vamos tentar outra vez, colando tudo com durex. Mas una hora o durex perde a cola.

Todas as vezes que tentei me encaixar em algo que não me cabia, foi a mesma coisa: por um tempo até me sentia confortável, talvez por sentir que aquele novo espaço me coubesse. Isso porque sou maleável. Mas chega uma hora que é preciso voltar ao seu tamanho original, porque é da natureza e pronto. E daí começa a dar problema.

Às vezes mudo de forma como resultado de alguma evolução, algum aprendizado, e daí procuro um lugar mais adequado. Isso é bem diferente de forçar o encaixe onde não pertenço. Bem diferente. Mas demorou muito tempo para perceber isso. A maior parte da vida aprendemos, na escola, no trabalho, na família e na vida social, que precisamos nos encaixar. É necessária alguma adaptação, claro. Mas quero mudar minha essência para isso. Isso não é adequação, é estupro.

Talvez poucas pessoas cheguem à conclusão de que estão no lugar errado. A maioria sente um incômodo, um vazio, mas segue com a vida. Uma certa alegria por estar no meio da multidão, adequado, compensa isso. No meu caso não. Ignorar isso é pena de morte. Literalmente.

Não existem fórmulas para encontrar o próprio caminho. Se houvessem, não seria o próprio caminho. Quando leio Nietzsche falando sobre isso, até me choca. Mas ele tem razão: é preciso se desprender de tudo e se perder um pouco, ir para o deserto rugindo de insatisfação antes de se tornar uma criança, inocente apesar de não ser ingênua. Essa criança vive sua própria realidade, porque sabe que não pode viver outra. Seria impossível.

Atarantado no meio de escolhas que são só minhas para fazer, me deparo com o fato de que não me ensinaram a fazê-las, porque as opções disponíveis sempre foram as dos outros anteriores a mim. Existe alguma outra coisa? Ah, e como existe! Mas isso não está disponível para quem se apega ao medo. Isso é para quem se borra de medo mas segue em frente em busca de algo que seja real, não programado por outras almas.

Quando isso termina? Não termina. Não pra mim. Não há retorno para quem já não se sabe mais o mesmo. Pois o mesmo é a morte. E a descoberta está oculta nos dias que virão.

2 respostas em “Metamorfoses

  1. “Não termina.” Predisposição ao que está oculto nos dias que virão, mesmo que cause dor. Um coração e uma mente expandida realmente não são os mesmos.
    Daniel, perfeito mais uma vez!

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