Para calar o silêncio

Quando ousei dizer o que gritava em silêncio
O medo e o tempo e tantos outros agentes da paralisia
Pressionavam para que eu não parisse
Esse horrendo feto deformado e insuspeito

Noites e dias de insônia e pânico
O horror da inércia rastejante vestida de costume
Meu tenebroso fantasma a rondar
E as circunstâncias a sussurrar: Para todo o sempre!

Os santos se calaram de indignada estupefação
Os demônios se calaram por tédio sem fim
Os homens comuns nem deram confiança
E o resto do universo se moveu quase imperceptivelmente

Pois que os santos sejam empalados violentamente
E os demônios fujam aos berros em línguas de fogo
E os homens e o universo se fodam
Junto com fantasmas e fetos deformados e toda essa nojeira

Pois meu grito será impossível de ser esquecido

E machucará os ouvidos de muitos
E trará sobre mim a fúria dos conformistas
E será angustiante e longo e muito alto
Porquanto não mais sofrerei calado em minha solidão superlotada

Pois a verdade é uma coisa estranha
Muitos dizem que a desejam, mas na verdade a temem
E se você a alcançou, não tente aprisioná-la
Pois será como um gato enfurecido encurralado dentro do peito

Quando ousei dizer o que gritava em silêncio
A paralisia se foi com o medo e o tempo voltou a passar
E a feia e deformada verdade se dissolveu em remédio para a alma
E toda a dor desse momento redundou em paz depois do choque

Não há mais santos, demônios, homens ou o universo
Apenas a minha realidade, sem julgamentos, angústia ou gritos abafados
Pois omissões e segredos não sobrevivem na luz
E não mais alimentarão os monstros que um dia ali habitaram

Pois ao abrir da boca os sussurros doentios se calaram para sempre

Mau Humor

“Eu descobri que são as coisas pequenas, os feitos diários das pessoas comuns, os simples atos de bondade e amor, que mantêm o mal afastado.” Gandalf, para Galadriel
O Hobbit – J.R.R. Tolkien

Por vezes me deparo com os sorrisos falsos, com os tapinhas nas costas, e com elogios fétidos, infectos. Por muitas vezes vejo nos olhares, disfarçados de admiração, um quê de desprezo e inveja (que não imagino do que seria) tão temida pelos supersticiosos. Por vezes a humanidade me faz querer ser um inseto, alheio a toda essa manipulação do poder e do controle.

Mas no fim do dia, todas essas coisas se desfazem como o dente de leão ao vento. Esquecidas como os mortos que um dia dissemos amar, sem honestidade. No fim do dia é com minhas escolhas que durmo, e com quem escolhi dormir.

Sempre sonhei com um sorriso largo pela manhã, e com um carinho afetuoso a cada momento, como uma comédia romântica de Hollywood. E posso dizer que tive esses momentos, em troca de uma submissão manipulada e com aparência de liberdade. O preço a se pagar por um sonho que só alimentaria meu egocentrismo, foi alto demais. Quase o preço de minha vida, se não tivesse acordado antes. Quase o preço de minha sanidade.

Quero um rosto carrancudo honesto. Quero o mau humor da manhã e a fragilidade da raiva descontrolada. Quero me sentir amado porque eu me amei e soube me dar valor. E ao lado, outro ser humano de verdade, tão falho quanto eu, mas que topa qualquer parada. Não o rosto suave de quem tem o frescor da água fria no rosto que acordou tarde. Mas o suor e a vermelhidão mal-humorada de quem luta ao meu lado pelo bem-estar de ambos. Quero, na verdade, o que encontrei e demorei para perceber que me faz bem. Quero o que recebi, mais que palavras, mas atos reais e honestos de quem já estava também cansado de tanta loucura disfarçada de normalidade.

Aos gritos se manda o engano embora. Aos gritos se mostra o que está escondido. Aos gritos se ressuscita os mortos e se desperta os vivos. E enfim, estou vivo. Finalmente, como há muito já não me sabia. E assim aprendi a suprir minha própria carência, e a amar a mim mesmo. Pois só assim fui capaz de amar novamente.

Espera

“O amor é o abandono da lógica. O abandono voluntário dos padrões racionais. Nós cedemos a ele ou o combatemos. Mas não há meio termo.” Steve – A Maldição da Residência Hill

Espero como um sapo nas bordas do pântano que a serpente passe
Como alguém que não aprendeu a lidar com a ameaça iminente
Espero pelo amor para que aconteça, sem tirar os olhos do mal
Espero pelo amor e ele me espera pacientemente e me chamando
Ao meu lado tentando me fazer enxergar que o mal está lá fora

Ao postar meus olhos no mal que me ameaça sem me ver aqui
Me transformo no que vejo, aquilo que focalizo com atenção
Então o mal que habita em mim toma seu espaço em minha alma
Pois o acaricio e alimento pelo medo constantemente relembrado
E então me torno o próprio mal, o monstro que mata o médico

Espero pelo amor e ele espera que eu desperte do meu pesadelo
Mas então pensei no amor, e ele não era suficiente para mim
Pensei em todas as coisas boas e elas tinham justificativas
Racionalizei tudo o que fosse afeto ou falta dele, e então me irei
Me pus a fazer em pedaços o que nem sabia estar ao meu lado

Espero pelo amor e ele espera por mim mas agora o que faço?
Esfaqueio violentamente aquilo que me era precioso sem saber
Que o que era precioso foi distorcido pela razão como abuso
Me sei agora mais forte, mais capaz e mais cheio de razão
Mas ainda espero pelo amor por mim ferido de morte

Esperava eu pelo amor, mas agora o reconheço claramente
E o que me faltava era apenas acolhê-lo sem julgamentos
Recebi o meu amor em meus braços e fui tratar de suas feridas
Por mim provocadas mas ainda aberto à cura da entrega irrestrita
Espero pelo amor para que se cure e torne-se vivo e belo

Hoje abro meus olhos para tudo o que seja diverso de mim
Pois não posso esperar pelo amor olhando para o meu medo
E já não espero, pois ele se manifestou em toda sua glória
Apenas me rendo e aceito o que só pode ser novo e bom
Espero por sabedoria para cultivá-lo com gentileza

Uma história de dois fatores

Essa é uma história verídica, a minha história. Daria um filme de Almodóvar ou talvez Tarantino, mas acredito que possa servir para ensinar algo ou mesmo entreter. Mas o que mais escuto ao compartilhá-la é: nem tudo é o que parece.

Sou uma pessoa singular. Quem não é, não é mesmo? Mas eu tenho certas características que me distinguem da maioria, e por causa delas eu talvez não devesse estar mais aqui, na terra dos viventes. Exagero? Bom, você vai julgar. Me deixe contar um pouco da minha história.

Sou um adicto. Isso significa que, em fases bem iniciais da minha vida, algo atrapalhou meu desenvolvimento psíquico, quando passamos a ter consciência do mundo a nossa volta e nos percebemos parte de algo maior. Um adicto tem a tendência a se enxergar no centro do universo, e assim egocêntrico, busca satisfazer suas necessidades não considerando as de mais ninguém. Essa busca é obsessiva, e quando há uma obsessão por algo, ela se torna uma compulsão. Em geral, nada é capaz de satisfazer essa compulsão, e isso nos leva a buscar algo que altere nossa mente e nosso humor. Essa acaba sendo a obsessão e compulsão definitiva para nós: as drogas.

Drogas podem se apresentar de várias maneiras. Álcool, maconha, cocaína, crack, drogas sintéticas, LSD, heroína e variantes. Mas não importa a qual ou quais você tem acesso, você vai brigar por elas. Elas são a razão da sua vida, o centro da sua existência.

Passei por várias fases no uso de drogas. Desde fumar maconha na faculdade e me embebedar nas festinhas até buscar cocaína para injetar e a derradeira, fumar crack sozinho dentro de casa após ter causado um divórcio, definhando até perder 30% do meu peso corporal. Passei por 3 internações em um hospital psiquiátrico, quase não consegui defender meu mestrado e quase perdi um emprego público por faltas.

Existem várias razões que podem ser apontadas para esse uso abusivo. Por ser gay, nunca tive problemas com minha família, uma boa família que sempre me apoiou. Porém, tive uma crise religiosa por ser cristão, achando que iria para o inferno, busquei ser “curado” em uma igreja evangélica renovada. Acabei conhecendo quem se tornaria minha esposa, minha melhor amiga que, ciente da minha orientação, acreditava que Deus havia me mudado. Bem, eu também acteditava nisso. E anos depois foi ela quem reconheceu que eu estava muito pressionado, e saiu de casa com uma única exigência: que eu fosse feliz realmente.

Tive outro casamento depois de mais duas recaídas, sempre salvo por uma internação e a ajuda de um grupo de homens e mulheres capazes de me ajudar a reconhecer os sinais da doença e dispostos a me ajudar a qualquer hora e em qualquer circunstância. Eles me ensinaram quase tudo o que eu sei sobre mim.

Casamentos acabam por diversos motivos, e o meu segundo acabou porque, pelo desgaste natural da relação que nós não soubemos administrar, tivemos uma idéia deveras estúpida: por permissão mútua, acabei tendo liberdade de me envolver com quem quisesse. Não preciso nem dizer que deu errado né? Alguém obsessivo e compulsivo com aplicativos de sexo na mão e a liberdade de frequentar saunas gays? É só pensar em crack: agora transforme essa substância em pessoas. É a mesma coisa. No fim, ele não suportou o abandono, eu me sentia abandonado por outros motivos e mais esse relacionamento acabou.

Agora me deixem falar um pouco sobre resiliência: todas as pessoas admiradas por essa características pensaram sim em desistir. Elas queriam muitas vezes estar mortas. Não se enganem: o tal do “forte” é aquele que reconheceu todas as suas fraquezas e decidiu que seguiria em frente com elas. Me lembro bem de uma oração que fiz logo após o meu primeiro divórcio: “Deus, se você vai me mandar para o inferno por ser gay, acho melhor do que me mandar para o inferno por ser um viciado. Eu não vou morrer assim.” Em geral a gente tem medo e vai com medo mesmo, está fraco e vai mais devagar, mas segue. E não se é nenhum herói por causa disso. Outras pessoas tem outros problemas que para elas são tão graves quanto o seu.

E assim eu sigo, vivendo um dia de cada vez, uns dias mais difíceis, outros muito alegres. E para terminar uma história tão pesada, para você que gosta de finais felizes (embora a vida continue, não é o final ainda) aí vai.

Me casei com um cara muito bacana, que passou por coisas terríveis também, mas de outra forma. Acho que pessoas com cicatrizes se entendem, e no nosso caso a alegria é prioridade. Três dias por semana, a nossa filha (filha biológica do primeiro casamento dele) faz a alegria da casa. Minha mãe de 81 anos também mora com a gente e faz tudo ficar mais leve. Ainda 4 gatos e 1 cachorro pug preto completam a população da casa.

Minha recuperação demanda tempo, umas 10 horas por semana, e é para a vida toda. Meu marido chama isso de investimento, e fala que a recuperação é para toda a família, não só para mim.

Minha ex-mulher se casou e foi para o interior. Tem uma filha de 8 anos. Seu marido é uma simpatia e somos muito amigos.

Mas o mais importante: estou vivo, estou limpo só por hoje (cabe a mim fazer todos os hojes assim) e sei que Deus vai me receber em seus braços quando eu morrer, porque Ele é meu Pai e me ama e ninguém me convence do contrário.

E TODO ADICTO PODE SE RECUPERAR SE TIVER ESSE DESEJO. Isso é uma verdade absoluta. Se você conhece alguém que precisa e deseja se recuperar, é só me chamar que eu posso apresentar uma turma muito especial.

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Foto: iStock.com/Getty Images

Moeda barata

“Do I have to change my name? Will it get me far? Should I lose some weight? Am I gonna be a star?” Madonna – American Life

Ao chegar em casa
Cansado da labuta diária
Pego meu controle remoto
Assisto às séries que amo
Ninguém é testemunha dos meus movimentos
Mas todos são testemunhas da minha vida

Tenho 824 amigos no Facebook
974 seguidores no Instagram
Participo de 10 grupos no Whatsapp
Cada um com mais de 40 membros
Muitos curtem minhas fotos
Muitos reagem aos meus posts
Muitos mandam bom dia
Ninguém sabe o que se passa comigo

Acredito que é o melhor
Ser conhecido por muitos
Desconhecido na realidade
Ontem passei mal em minha casa
Mas não postei nas redes
Pois todos têm uma vida incrível
Eu também preciso ter

Mas que tipo de vida eu tenho?
Não viajo todos os anos para o exterior
Malho mas não tomo o Whey mais caro
Não tenho namorada com corpo de modelo
Nunca consultei um coach para ser mais articulado
Todo mundo está vivendo mais do que eu
Então tiro fotos da minha varanda
E espero que gostem da minha roupa nova no espelho

E aquela menina da minha academia?
Olharia para mim?
Não tenho um carro do ano
Igual ao que o meu amigo postou ontem
Não tenho amigos que vêm à minha casa
Eles só me encontram no bar
E daí vêm as minhas melhores fotos

Um dia
Tirarei minha própria vida
Pois não faz sentido
Almejar o que eles têm
E não ter nada
E não ter como ter tudo
Talvez hoje

Enquanto isso as lágrimas rolavam, e no sabor salgado das mesmas, ele se dava conta de que as lágrimas não eram o sal: as lágrimas eram alguma coisa que não se resumia ao sal. Abriu os olhos, e viu a lua. Ele percebeu que a lua não era sua luz, mas uma coisa muito maior, que refletia a luz de outra coisa. E se deu conta do engano em que havia acreditado. Ter é diferente de ser. Então adormeceu.

Hoje saí na rua
E notei como é bonita a moça da padaria
Como é forte o meu vizinho
O quanto os cachorros da casa em frente
São cheios de vida
E percebi que tem crianças na vizinhança

Hoje notei
Que sou bom de papo
O rapaz do sacolão gostou
Aquela senhora que varre a calçada
Me achou simpático
Hoje notei
Que sou mais do que mostro
Mais do que escondo
Hoje notei
Que tenho mais a oferecer
Do que meus posts nas redes
Hoje eu reparei em mim
E gostei do que vi

Saio de casa
Há um trabalho a ser feito
Ando com a cabeça erguida
Pois o celular está no bolso
E a mente está no mundo
Será que hoje vou conhecer alguém especial
De carne e osso?
Uma moça, um amigo
Será que eles vão perceber?

Sou aquele que renasceu
Sou alguém que sempre teve muito a oferecer
Mas não acreditava nisso
Pois o que tenho não é igual ao resto do mercado
Quem sou não se enquadra
No que todo mundo demanda
Mas por que me preocupar?
Meu produto
Não se compra com a moeda barata
De uma vida de aparências

Crise

Uma luz quente e viva
Queimando como lava incandescente
Perpassa meu cérebro inquieto
Rasgando todas as conexões neurais
Atabalhoado tento me agarrar
A alguma sanidade ou estável insanidade
Tentando não me afogar nas infinitas possibilidades

Então uma garra metálica a espremer o coração
Que pula de desejo e desespero para o abismo
Tentando encontrar uma saída possível
Falhando em buscar alguma forma de liberdade
Nesse labirinto de sensações e impressões
Encontro a mais terrível e doce morte
Sangrenta mas asséptica
Obscurecido pela luz absurda

Um grito silencioso de socorro escapa dos lábios da alma
Sabendo que todo o universo pode escutar
Mas não dá ouvidos
O choro preso na garganta sufoca todo o amor que existe
Ao entrar trôpego na penumbra segura
Cigarros de menta e cereja dariam algum sabor
O álcool traria algum alívio
Mas tal qual um acidente de carro
É preciso tempo e cuidado
É preciso estar olhando para fora
Quando o caos se instala por dentro

Então tudo começa a desaparecer
Como uma anestesia aplicada
A sensação de irrealidade toma conta
E de repente é possível ser feliz de novo
Foi o corpo que se cansou?
As feridas já cicatrizaram como as de um vampiro?
Mas isso na verdade não importa
O mundo voltou a ter cor
E a luz já não machuca mais

* Oringinalmente publicado no Facebook há pouco mais de um ano.

Camadas de Realidade

“You my brother
You’re gonna take me with you”
Pet Shop Boys – Fugitive

Te vejo entre bytes
Informação pixelando imagens
Me acende
Desejando um pedaço de carne nova

Te vejo entre os carros
Comparação com todos os outros
Me intriga
Ansiando por um pouco mais de conhecimento

Te vejo nos olhos
Imersão em um universo novo
Me assusta e atrai
Perecendo por querer viver tudo de uma vez

Me sabendo cada vez menos experiente em minha força
Me sentindo cada fez mais fraco em minha experiência
Tudo o que você me trouxe
Me fez desistir de tentar provar que não preciso provar nada

E em minha ansiedade por fazer a coisa certa
Atuando num papel que não me cabe
Enxergando o que não existe em nosso mundo
Acabo não percebendo o que se mostrou tão claramente
Meu sonho se realizou pleno
Minha vida se tornou o que sempre ansiei
Ter um irmão como amante
Daqueles que jamais se separam

E o futuro
Plantamos ontem em nosso jardim
Plantamos hoje em nossa rotina
O futuro é agora
E já não há mais desgraça
Exceto na lembrança que dista como navio
A toda velocidade

Síndrome do Sobrevivente

“You’ve gotta lift that heavy load. You’ve gotta get back in control.” Hey now what you doing – New Order

Nem tudo é permanente
Embora a dor ou a apatia pareçam não findar
Nem tudo é permanente
Mesmo que seus piores pesadelos venham tomando forma
Nem tudo é permanente
Embora pareça que não haja nada a ser feito
Nem tudo é permanente
Em um mundo onde a foto mais bela é apenas a foto do dia

Nem sempre estar descrente
É a perspectiva mais realista
Pois ao se andar para a frente
Descortina-se uma nova face do planeta
A esperança foi cortada rente
Ao chão. Até a base. Mas as raízes estão no solo
Ao regar seu jardim novamente
Tudo poderá florescer como antes

Ou mais

E todos os cínicos que parecem ter razão
E todos os egoístas abjetos que não sabem amar
E tudo, tudo o que faz você se encolher resignado
Podem se desfazer diante do brilho da sua força

Corra! Os últimos dias trouxeram desafios mais terríveis que os anteriores
Morra! O renascimento trará uma glória ainda maior
Pare! O que você vê mudará com o movimento do seu olhar
Espere! Apenas o próximo instante trará a conclusão do primeiro

E nós vencemos o terror de toda una sociedade hipócrita
Portanto somos capazes de anular o veneno da nossa própria hipocrisia
Apenas quem enxerga mais que todos os outros
Será seguido em direção à luz que vê

Romance

My romance doesn’t need a thing but you” Carly Simon

Um barco a vela em Cote d’Azur. Um cruzeiro no mar do Caribe. Jantares a luz de velas com frutos do mar e vista para a Torre Eiffel. Ternos italianos numa festa próxima ao Tâmisa. Romance. Romance como deve ser.

Meu romance é algo diverso. Meu romance entra direto em meu peito como flecha. Meu romance passa por outros lugares em meu cérebro com cores, cheiros e temas que ninguém mais poderia reconhecer.

É entrar no banheiro e ver seus chinelos jogados num canto. Receber você e ver que trouxe pão da padaria. Conversar sobre as contas a pagar e discutir como vamos fazer. Uma perna sua para fora das cobertas com o pé roçando o meu. Passear com nosso cachorro e beijar os gatos na sala. Meu romance é fumar com você, sentados na varanda, rindo e esbravejando sobre as chateações do trabalho.

Romance é ver você de cara amarrada e reconhecer ali o rosto que eu amo. Abraçar e beijar você numa festa lotada, cercados de ex-namorados e dizer, ouvir eu te amo. Sentar no Uber e pegar a sua mão. Segurar você com sono e bebinho e agradecer pelo peso do seu corpo. É preparar o feijão e queimar o arroz tagarelando sem parar.

Meu romance é ter você, meu querido companheiro, ao meu lado. Parar de me preocupar porque agora eu tenho meu cobertor, que me deu tanto amor, e que nunca deixa o frio tomar conta de mim*. E tomar conta de você, atento. Somos presentes de Deus um para o outro. Esse romance nunca vai acabar.”

* Ara Ketu – Cobertor

Vôo para o Subsolo

“Been here before
Been here forever
Moving up slowly, inertia keeps
Moving up slowly, inertia creeps
Moving up slowly, inertia keeps”
Massive Attack

Hora belos morangos suculentos e doces
Hora coisas disformes cinzentas e podres
Por se passar o tempo e nada foi feito a respeito
Meu peito, meu cérebro inquieto e a inércia
Toda aquela dor jogada debaixo do tapete
Coberta pela fina poeira da estagnação

Algo gritava
Não sei se eu ou um estranho
E as noites davam lugar aos dias, vertiginosamente rápidos
E bares, falsos amigos para servir de consolo
E corpos jovens e maduros, e bocas e sexo
O choro corria livre, mas por dentro
O corpo, prisioneiro da própria liberdade

A ressignificação do bem estar me mantinha são
A loucura, porém, correndo solta pelas sinapses
Som e luz e cor e ego todos muito, muito ampliados
Veneno, puro veneno para uma alma
E já não havia para onde voltar
E já não havia vontade de voltar
E já não havia mais eu
Mesmo com ego demais

(Respire)

A sanidade é obtida aos poucos
Construída sem pressa, tijolos nos lugares certos

(Olhe em volta)

A poeira sacudida começa a baixar
E mostrar uma confusão que pode ser arrumada

(Volte)

E você verá que tem para onde voltar
Lar é onde se encontra pouso