Onde a luz não alcança

Introdução

That’s all there is. Nothing more than you can feel now, that’s all there is.” Depeche Mode

O apartamento inteiro na penumbra. As luzes da rua projetando monstros nas paredes e teto. Tateando à procura do telefone, os dedos pretos e grudentos daquela graxa e da falta de banho há dias, mãos trêmulas de noites seguidas em claro finalmente encontraram o aparelho. O céu perfeito de estrelas, mas isso não importava: ele nada lhe dizia. Havia como que um rugido no peito, pouco menos que o ronronar de um gato, como se o corpo inteiro estivesse numa dormência agitada, daquelas que se sente após um soco no estômago. Tirou o telefone da base e ele se iluminou. Precisava pedir ajuda. Aquela graxa grudando em tudo, mas não importava, ele não sabia se no dia seguinte estaria vivo. Então a luz do telefone o fez perceber algo no canto da sala.

Havia algo rastejando na escuridão. Algum tipo de criatura com pernas e braços compridos e uma pele fina como que de um sapo. Se aproximava rapidamente, como se não sofresse atrito com o chão. Vocalizava um ronco grave e contínuo e seu rosto parecia uma face humana derretida. Começou a lhe subir pelas pernas, a pele fria deixando uma gosma densa por onde passava. Seguindo pela virilha, barriga, o desespero tomou conta de si, o coração parecendo um tambor, e a criatura então atingiu o peito e o perfurou com garras vítreas, apertando o coração com um riso debochado na cara. Não fora capaz de emitir um som, enquanto seu coração se rompia em meio a uma angústia descomunal, um verdadeiro ataque de pânico. Sentindo o sangue em sua boca, a lua no céu começou a empalidecer até desaparecer por completo. Então era o fim. Tudo acabaria ali, naquele momento. Perdeu as forças e desfaleceu.

Deve ser sido o maior grito que dera em toda sua vida, quando acordou como que de um pesadelo, mas o grito não emitiu som algum. Teria sido um pesadelo? Tateou o peito, intacto. Apavorado, levantou-se de um pulo, o telefone com um som surdo bateu na parede. Não havia monstro. Apenas uma luz vermelha e outra verde passeando na parede. Horrorizado, deitou-se no chão sujo. Miras a laser de metralhadoras. Fora descoberto! Então ouviu seus vizinhos gritando palavras de ordem: “Sai logo daí! Todo mundo já sabe!”. Tremendo e chorando, as mãos na nuca e o rosto no chão, passou talvez uma hora ali deitado. Levantou-se quando o silêncio havia retornado. Haviam eles desistido? Ou nunca estiveram lá?

Procurou o telefone caído por trás da mesa, e buscou com dificuldade o número na agenda do aparelho. Enfim discou. Anotara o número mais cedo naquele dia de um anúncio atrás do ônibus que seguia na frente do táxi em que havia entrado. O anúncio dizia que podiam ajudar. Eram três da manhã, provavelmente ninguém atenderia mesmo… Enquanto o telefone chamava, olhou em volta em busca da criatura ou das miras a laser. Nada. Apenas a escuridão e um opressivo silêncio. Não havia mais ninguém, ele estava completa e inteiramente sozinho.

Enfim, um clique do outro lado da linha. Alguém havia atendido afinal.

Continua…

MEMÓRIAS DE UM GAROTO ESTRANHO (PARTE 1)

O lugar cheirava a fumaça e perfume, com uma suave nota de perdição. Havia um cheiro de liberdade no ar, misturado a uma angústia pungente e irresistível. Sim, irresistível pois seu coração seguia como um carro desembestado em direção ao drama, à tragédia. E, por que não, em direção ao amor?

Isso aconteceu nos anos 90. Ele conseguia um dinheiro com os pais e ia passar a noite dançando e buscando beijar os homens mais atraentes que pudesse encontrar (e seduzir) do alto dos seus 17 anos. A curiosidade o movia como gasolina e nada, absolutamente nada iria impedi-lo agora que ele sabia que havia um lugar onde ele podia ser ele mesmo, não se esconder, ir ao encontro dos seus iguais. Amigos avisaram que isso era uma forma de viver em um gueto, mas para ele, se esse era o preço a ser pago pelo prazer que tanto buscava, era justo.

Naquela noite, ele foi o primeiro a entrar. A pista era rebaixada em relação ao resto do piso da boate, de forma que se tinha a impressão de estar numa arena. A excitação percorria seus membros como eletricidade, e ele pediu uma taça enorme de licor de menta com gelo (não gostava, mas os mais velhos bebiam, então devia ser a coisa certa a fazer) e se dirigiu direto ao centro da pista. O DJ tocava algo eletrizante, ele não conhecia a banda, mas o fato é que começou a dançar como se só houvesse ele no mundo. Era como se sentia, e estava bom assim, por enquanto.

A casa foi enchendo e ele começou a paquerar algumas pessoas. Ele não sabia ainda, mas o que acontecia era já um hábito: as pessoas mostravam interesse mas depois não olhavam mais. Era chamado “carão” e era típico do início da noite. Objetivo? Manter sob vigilância aquele cara interessante, mas ver se há outros melhores antes de tentar se aproximar do (s) primeiro (s). Ele não sabia ainda, mas essas e outras coisas partiriam seu coração ainda por muitas noites e dias ao longo dos anos.

Lá pelas tantas, aconteceu um fato curioso, parta dizer o mínimo. Ainda sem ter ficado com ninguém, ao passar perto de uma das mesas laterais, um senhor idoso o chamou. Ele era bastante afeminado e muito magro, a pele bastante vincada e quase completamente careca, a não ser por uns tufos grisalhos acima das orelhas. Mas havia algo em seu olhar que parecia ser a própria imagem da decadência. Um pouco de má-vontade, por pensar que seria uma cantada, ele se aproximou para ouvir melhor naquela barulheira. Então o homem disse, passando a mão carinhosamente em seu rosto:

– Tão bonito! Como você se chama?

– Rodrigo.

– Ainda não conseguiu ninguém essa noite Rodrigo?

Ele riu sem-graça e respondeu:

– Não, ainda não.

O homem suspirou com um ar de nostalgia e pena ao mesmo tempo:

– Ah, vocês nessa idade são tão cheios de esperança, brilho e ilusões de glória! É pena que o futuro seja tão sombrio e solitário. Vá, meu menino, seja feliz enquanto você ainda tem a sua juventude! Aproveite suas ilusões de amor e glamour, pois elas são o que de melhor você terá. Encontre o seu príncipe encantado dessa noite, antes que você se canse dessa procura mais tarde. Divirta-se!

Aquilo foi um golpe tão violento e frustrante, que até o efeito do álcool passou. E Rodrigo ficou alguns minutos agarrado à grade que circundava a pista com seus pensamentos na velocidade da luz. Quem era aquele homem para dizer aquelas coisas? Pelo que teria passado? Será que estamos todos condenados mesmo a uma vida de solidão e uma velhice de isolamento? Teria isso alguma relação com o que a bíblia dizia sobre “eles serão responsáveis pelo sua punição”? Estaria ele entrando em um caminho amaldiçoado e vazio?

Pagou e saiu da boate sem nem perceber. Olhou para o letreiro de neon vermelho: “Fashion”. Estaria ele jogando seu futuro fora por moda? Mas havia algo além. Não era só a diversão que o levava ali. O cerne de tudo isso era que desde os nove anos, mais ou menos, ele sentia que era diferente dos outros meninos. Sentia amor e atração pelos outros meninos, e isso só se fortalecia desde então. Estava em paz com isso, apenas um pouco confuso, até que um dia encontrou “aquele livro” escrito por um pastor anos antes. E o livro dizia, com base na bíblia, que ele precisava negar a si mesmo, não agir de acordo com seus impulsos e se entregar a Deus, para não receber a condenação.

Havia sido muita informação para seus quinze anos! E agora aquele homem… Sentia-se tão confuso que queria correr dali para algum estado de inconsciência, esquecimento, inexistência. Não. Precisava ir para casa e dormir. Só dormir.

Fragmento de um conto não contado

Ela seguia pela rua escura. Olhava para trás a cada 5 minutos. As mãos estavam frias, o coração acelerado, tudo parecia incerto. Como foi que tudo aconteceu? Como aquilo poderia estar acontecendo com ela? Belo Horizonte era fria naquela época do ano. Virou à direita em uma rua estreita e saiu na Pedro II.

22 horas e 1 minuto. Por quê aquele 1 minuto a incomodava? Não sabia. Não tinha tempo para pensar sobre isso. Continuou caminhando, dessa vez sem rumo. Precisava continuar, precisava seguir em frente. Os carros passavam rapidamente, e a assustavam. Seguia sem destino porque lhe parecia que não havia mais lugar no mundo para ela. Mas não estava com medo. Apenas apressada, não queria ser vista ou reconhecida. Aquele era o lugar perfeito, nunca andava por aqueles lados. Aquela era a pior cidade para fazer aquilo. Um ovo, todos se conheciam.

Seguiu em frente e sacou a arma da bolsa, escondendo-a no coldre sob o casaco. Algumas pessoas a incomodavam ali, não queria estar desprevenida. Era durona, aquela ali. Graduou-se na academia da Polícia Militar com um desempenho superior a todos os seus colegas. Era metódica, disciplinada, incorruptível. Isso não podia estar acontecendo, Deus, não podia! Era um pesadelo do qual não conseguia acordar. Então seguia, indefinidamente, mas estava quase chegando ao complexo da Lagoinha. Precisava tomar uma decisão, definir um rumo. Olhou à esquerda, uma prostituta. À direita um travesti mexia com ela, alguma coisa com “concorrência”. Concorrência? Estava decente! À frente, homens mal-encarados em um movimento suspeito. Um deles se aproximava. Levou a mão à arma. Então, uma dor na nuca, um clarão e a escuridão.

Esse texto é um fragmento de algo maior, ainda não planejado. Se você tem alguma opinião, compartilhe! Em breve saberemos mais sobre a história de nossa heroína (o antes e o depois).