Latinha de cerveja, camisinha usada e cocô de cachorro

“As drogas me deram asas para voar, depois me tiraram o céu.”
Jonh Lennon

Sábado passado fui passear com meu cachorro pelo bairro, e acabei me esquecendo do saquinho para colocar o cocô. Como todas as vezes em que isso acontece, fico procurando nas lixeiras dos meus vizinhos um saquinho que eu possa usar. Sábado de manhã é dia do caminhão da SLU passar, e sempre acaba tendo algum saquinho que me salve de subir de volta pra casa.

Fui salvo então por um saquinho com um latão de cerveja vazio da Skol. Satisfeito, segui meu caminho, até que Otto (meu cachorro mais bonzinho do mundo) agachou para fazer cocô bem ao lado de uma camisinha usada, bem cheia e devidamente amarrada. A rua onde estávamos é bem erma, um de seus lados é um lote vago transformado em parque (Parque Sol Fernão Dias) que cai em um barranco vertiginoso que dá vista para a zona Norte da cidade, e à noite os casaizinhos fazem a festa em carros de vidros embaçados, ao som de pancadas nos vidros. A camisinha do cidadão me mostrava que ele foi muito feliz na noite anterior.

Ato contínuo, coloquei minha mão dentro do saquinho e catei o cocô do Otto, junto com a camisinha e embalei também o latão de Skol, detentor original do invólucro. Foi tão automático, tão sem questionamento naquele momento e tão correto no meu ponto de vista, que quando penso nisso agora, chego a me chocar. O que é que eu tinha a ver com a camisinha do ilustre desconhecido? Por que fazer tanta questão de retirá-la da via pública? E que trio mais estranho aquele que acabei descartando na lata de lixo da rua de cima! Já achei um mico no lixo, mas aquilo levou a esquisitice a um patamar inteiramente novo.

É claro que se fomos observar a combinação de coisas que podem estar em um mesmo saco de lixo, vamos ver algo bizarro sempre. Mas aquilo foi exclusivo e quase intencional. E agora rio do fato que eu realmente precisei catar aquela camisinha e juntar aos outros dois elementos, pois tenho uma necessidade de organização que chega a ser doentia. Aquela camisinha não poderia ficar jogada na rua. Deveria ser devidamente descartada de maneira civilizada, como um bom menino faz. Esse bom menino que sai para passear com o cachorro e cata o cocô, que levanta de manhã para cuidar das coisas da casa, o bom menino que não pode ver algo errado que quer resolver.

O bom menino nem sempre foi bom. Ou melhor, por dentro ele foi. Mas seus vícios não o deixavam mostrar isso. Tudo estava em desordem por muito tempo. A simples idéia de um sonho suburbano, com rotina de passeio com o cachorro, marido, filha, mãe, gatos, prestação do carro, contas a pagar e tudo o mais, me dava arrepios! O negócio era viver à noite, encher a cara, ficar chapado e trabalhar com o que gostava. A idéia de amor sempre foi algo intangível, mais associado à idéia de uma pessoa do que com o contexto completo. Talvez um amor de Romeu e Julieta, para declamar poemas e depois cometer suicídio. Só que o suicídio era diário.

Latinha de cerveja, símbolo de meu alcoolismo e dependência química, usando quantidades cada vez maiores de substâncias alteradoras da mente, cada vez com maior frequência. Camisinha, representando a compulsão sexual e o desejo desenfreado, cada vez com mais pessoas em menos tempo, sem limites ou critérios. Cocô de cachorro, onde naturalmente eu poderia amanhecer com a cara enfiada, pois não havia mais noção de onde poderia estar indo e não havia nada que fosse proibido, afinal, quem eram os caretas para me colocar limites? Eu era dono do meu nariz , e ele acabava enfiado na merda. Três símbolos, embalados e devidamente depositados no lixo. E viva o subconsciente!

Liberdade não é fazer o que se quer, a hora que se quer, do jeito que se quer. Liberdade é fazer coisas que não lhe tornem prisioneiro. Eu era prisioneiro do que eu chamava de liberdade. Hoje percebo que escolhi a vida na ruazinha arborizada, passeando com o cachorro, me preocupando com as necessidades de minha mãe, filha e marido, e ela é simplesmente deliciosa. Acordar às cinco da manhã para botar ração para os bichos e me vestir para ir ao hospital trabalhar com o que gosto. Depois encontrar com meus amigos do grupo de mútua ajuda que sabem o que é ser como eu e compartilhar, ajudar e ser ajudado. E à noite, dormir. Antes, dormir era chato. Hoje é um merecido prêmio.

O desejo desenfreado a ser satisfeito não compensa, nem nunca é realmente satisfeito, porque seu preço é alto demais. A cerveja pela manhã já está azeda, o esperma ficou líquido e frio e a pessoa ao lado é uma estranha. As drogas se acabaram e o dinheiro também, e você se vê onde não queria estar: no meio dos excrementos. Porque liberdade tem cheiro de sabonete e café passado agorinha pela manhã, e alho refogado com perfume de marido à noite. Aquele, com os cabelos embranquecendo e mau-humor matinal, reclamando do seu ronco, mas que conhece até o seu olhar mais discreto e topa qualquer parada para te ver bem. A casa que dá trabalho, com os gatos soltando pelos no sofá e os vizinhos barulhentos, mas onde você chega e respira fundo: cheguei!

Latinha de cerveja, camisinha usada e cocô de cachorro. Prefiro uma caneca de café novinho, cueca de algodão e o cocô do cachorro mesmo. Porque o cocô agora está em seu devido lugar, e hoje eu tenho o carinho do cachorro. Porque ficar chapado é bom demais, mas ser eu mesmo é melhor ainda. E porque o subúrbio, meus amigos, é infinitamente mais feliz do que a boate.