Crescer

Leva um longo tempo para se percorrer os caminhos de volta dos enganos nos quais se acredita por tanto tempo. É preciso uma boa dose de boa vontade para descortinar as negações mais profundas que impedem de se ver tudo aquilo que precisa ser tratado, como uma bandagem bonita sobre uma ferida infecta que já não dói mais no local, mas gangrena já um membro inteiro. É preciso coragem para largar velhas crenças limitantes, que já se tornaram grades brilhantes de uma prisão confortável. Talvez, só talvez, tudo isso poderia ser ignorado por já se estar acostumado a carregar umas arrobas a mais nos ombros, pois a corcunda já está bem calosa e afinal, quase todo mundo vive assim. Mas não pra mim.

Todos os dias enxergo um novo obstáculo, que para ser superado exige que eu largue alguma coisa muito difícil de se abrir mão. Difícil no nível de se perder um olho, ou algo assim. Só que não é nunca um olho, mas uma lente colada sobre ele por anos. Por isso dói. Mas enxergar melhor vale a pena. Só não se sabe antes de tirá-la que vai se poder enxergar sem ela. Todo esse processo desgasta, e ao se arrancar a cola, as feridas que ficam levam um tempo para se fechar. Mas elas se fecham, deixando uma cicatriz feia, mas forte e protetora. E o desgaste dá vontade de parar a caminhada. Viver em constante reforma é viver em constante destruição, antes da reconstrução. Então de vez em quando se dá uma folga para os pedreiros.

Mas chove. E venta. E ladrões levam embora o material de construção, e os muros desprotegidos podem ruir. Não dá pra parar. Não dá pra deixar pra depois um crescimento que deve ser constante, ou pode-se perder tudo o que foi feito. Trabalhoso. Cansativo. E não existe caminho de volta, apenas para o fundo de um novo e desconhecido poço. Descansar talvez um pouco, mas seguir em frente sempre, é pré-requisito para não se perder.

Sempre acreditei que tudo isso fosse sobre o amor. Mas é sobre conhecimento. E abandono do controle. E enfrentamento de medos. O amor é uma consequência. A cereja do bolo.

Hoje entendo que não sei de nada, realmente. E quando achei que sabia, parei de aprender. E parar de aprender é cegueira, surdez e insensibilidade tátil.

Denso? Não, é simples. Apenas abaixo da superfície.

Autobiográfico

“‘Cause darling I’m a nightmere dressed up like a daydream.” Taylor Swift

O céu negro irrompe ao abrir de olhos em mais uma manhã fria. É difícil não admirar o céu de estrelas elétricas aos pés do morro. Tateio pelo lugar que conheço bem, em busca de café, marmita, cigarro. Encontro alguma paz no cheio forte da caixinha de areia dos gatos. Ninguém me observa, ninguém testemunha minha monótona rotina, ou imagina o que explode nessa hora em meu cérebro inquieto.

Os fios soltos dos novelos de ontem começam a ser puxados por gatos malignos e indiferentes, trazendo tudo para fora. E ciclos intermináveis de argumentos e contra-argumentos furiosos. Peito em brasa, viagem em loop temporal, me distancia do presente. Apenas o passado e o futuro, o passado e o futuro, o passado e o futuro. A angústia e a euforia ciclando infindavelmente até a exaustão que não chega.

Por fora, apenas um homem sentado na mesinha de madeira da varanda.
Bebericando um café e dando mais um longo trago no cigarro de filtro amarelo. Fitando um gato branco de olhos arregalados (será que ele enxerga pensamentos?), e a luz vai gradativamente aumentando sem que eu perceba ou permita. O dia vai nascendo impetuosamente sem pedir licença para quem surta. E a cabeça pende de olhos fechados com um murmúrio nos lábios:

Deus, ajuda-me. Aquele dia naquela conversa eu… Mas então não saberia se… Por que não disse… Por que não disse não, e parei o fluxo de… Estando eu ali não sei se… Alguém me reprime. Alguém tenta estabelecer seu poder sobre mim. Mas já não sei se é bem isso, ou se a minha realidade está distorcida. Onde perdi a referência? Como voltar? Tira de mim essa dor. Tira de mim antes que eu tire de vez.

E ainda nem são seis da manhã. Hora de sair para o trabalho, embaixo do chuveiro o cheiro de sabonete. Delicioso.

Perfumada está a alma. Com os pensamentos todos em seu fluxo organizado e a clareza de quem colocou o caos à luz da consciência. Já se passou um ano desde que as manhãs começaram a ficar assim. E a realidade agora dista dos pesadelos acordado, e o presente é vivido plenamente por quem se cansou de sonhar e de se lembrar. E o sol se impôs ali no céu. Enquanto seguir esse caminho, nada terei a temer.

Alma (demônios)

“Power resides where men believe it resides. It’s a trick: a shadow on the wall.” Lord Varys (Game of Thrones season 02)

Onde estão os demônios que assolavam sua vida há umas boas décadas? Onde se escondem? Por onde rastejam com suas línguas bífidas, arranhando as pedras do chão com suas garras? Para onde direcionam seus gigantescos olhos amarelos ameaçadores? De qual medo agora se alimentam vorazmente com suas presas cravadas nas artérias? Quem os comanda às gargalhadas ao ver o sofrimento infindável?

Todas aquelas hordas de criaturas feitas de fragmentos da alma, a flutuar ao seu redor, incitando o ódio e o ressentimento, ao vibrar na sintonia da morte espiritual que parece não ter fim… todas as paranóias e desejos de sangue e carne… de onde vieram? Por que nunca vão embora? A loucura toca os sonhos em seu domínio, e nada mais faz sentido algum.

Um dia eles foram embora junto com sua crença de que você fazia parte de seus vícios. Um dia você decidiu que simplesmente olharia para o outro lado, e eles se transformaram em fumaça branca e fétida. Deixaram sua alma fragmentada para trás, e um bocado de trabalho a ser feito. Ainda doía. Ainda faltava muita coisa. Mas seus olhos fitavam o caminho à frente. Longo, penoso, mas certo.

Às vezes você pode sentir saudade de sua companhia, seus vícios, toda a horrível vida, mas que ao menos lhe era familiar. Às vezes você gostaria de invocá-los. Mas você sabe: eles só podem fazer o que você acredita que eles podem. Nem um dano a mais.

Aborto

“Amadurecer, morrer; é quase a mesma palavra.”. Victor Hugo

Até breve!

O amanhã já vem, tedioso como sempre. Me debruço em lágrimas sobre essas lamúrias penosas, advindas dos sonhos despedaçados de glória e euforia, que já não acendem meu peito. Já não ascendem aos olhos.

Me contorço em meio ao sangue que verto por não estar mais iludido. Perdido, sem poder estancar toda essa vida que já se esvaiu em tentativas inúteis de ser ainda um menino. Mas tudo era tão bom, afinal. Tudo era perfeito nesses sonhos de amor idealizado, à medida em que se poderia manipular a realidade com uma boa dose de leviandade e sonhos impalpáveis.

Tudo era perfeito ao ponto de ser esfaqueado e não sentir. Olhar para uma pilha de cadáveres decompostos e enxergar um jardim. Sentir falta da dor lancinante que parecia ser o prazer mais orgástico, indispensável. Cansado, sem me cansar de morrer, sentindo que a vida era plena e tudo era belo em meio a uma paisagem desolada.

Até breve!

Me lembro dos seus altos e orgulhosos brados, moleque arrogante e orgulhoso. Você sempre soube tudo! Sempre soube como espalhar sua ignorância aos quatro fétidos ventos. Me lembro de sua sabedoria auto imputada, clássica crença da ignorância dos tolos. Ouvirei talvez os brados ao longe, antes que o esquecimento dê cabo de sua vida inútil.

Até breve!

Mas isso é uma mentira, não é mesmo? Não existe desejo de brevidade. Existe um adeus sem o menor sentimento. Essa parte abortada de mim deve morrer de inanição, pois encanta com palavras e voz macia. Promete a fortuna e a felicidade. Sonha tão irresponsavelmente que se joga de um precipício esperando voar.

Para onde?

Para onde nunca estive. Onde a vida é dura e injusta, e se aprende a cada dia. Para a terra dos viventes, sem pedir desculpas por fracassar em ser excepcional. Para a terra dos seres humanos. Ali a sabedoria pode ser encontrada e tomada a conta-gotas. Fora da terra prometida não serei mais enganado por promessas. Nem mesmo as minhas.

Simples

Não funcionaram para mim discursos libertários que relativizaram a moral ou a ética. Nem tampouco a opressão de líderes religiosos que tentaram me manter na coleira por buscar sua aprovação paterna.

Não funcionou para mim a busca do amor romântico como única fonte de felicidade. Nem tampouco o ensimesmamento que aponta para a independência como desculpa para o isolamento.

O que me liberta é buscar em mim as respostas para minhas próprias perguntas, tendo como guias as pessoas ao meu redor: umas me mostrando fragmentos de mim mesmo, outras escancarando caminhos e valores dos quais não compartilho. E o amor? Esse me ensina a satisfação em estar ao lado e compartilhar uma vida. Ensina que ao doar, recebo, nem sempre da pessoa para quem doei. Mas muitas vezes de uma plenitude que brota da própria doação.

Simples. Simples até demais. Talvez por isso tenha demorado a cogitar esse modo de vida como algo a ser considerado.

Uma história de dois fatores

Essa é uma história verídica, a minha história. Daria um filme de Almodóvar ou talvez Tarantino, mas acredito que possa servir para ensinar algo ou mesmo entreter. Mas o que mais escuto ao compartilhá-la é: nem tudo é o que parece.

Sou uma pessoa singular. Quem não é, não é mesmo? Mas eu tenho certas características que me distinguem da maioria, e por causa delas eu talvez não devesse estar mais aqui, na terra dos viventes. Exagero? Bom, você vai julgar. Me deixe contar um pouco da minha história.

Sou um adicto. Isso significa que, em fases bem iniciais da minha vida, algo atrapalhou meu desenvolvimento psíquico, quando passamos a ter consciência do mundo a nossa volta e nos percebemos parte de algo maior. Um adicto tem a tendência a se enxergar no centro do universo, e assim egocêntrico, busca satisfazer suas necessidades não considerando as de mais ninguém. Essa busca é obsessiva, e quando há uma obsessão por algo, ela se torna uma compulsão. Em geral, nada é capaz de satisfazer essa compulsão, e isso nos leva a buscar algo que altere nossa mente e nosso humor. Essa acaba sendo a obsessão e compulsão definitiva para nós: as drogas.

Drogas podem se apresentar de várias maneiras. Álcool, maconha, cocaína, crack, drogas sintéticas, LSD, heroína e variantes. Mas não importa a qual ou quais você tem acesso, você vai brigar por elas. Elas são a razão da sua vida, o centro da sua existência.

Passei por várias fases no uso de drogas. Desde fumar maconha na faculdade e me embebedar nas festinhas até buscar cocaína para injetar e a derradeira, fumar crack sozinho dentro de casa após ter causado um divórcio, definhando até perder 30% do meu peso corporal. Passei por 3 internações em um hospital psiquiátrico, quase não consegui defender meu mestrado e quase perdi um emprego público por faltas.

Existem várias razões que podem ser apontadas para esse uso abusivo. Por ser gay, nunca tive problemas com minha família, uma boa família que sempre me apoiou. Porém, tive uma crise religiosa por ser cristão, achando que iria para o inferno, busquei ser “curado” em uma igreja evangélica renovada. Acabei conhecendo quem se tornaria minha esposa, minha melhor amiga que, ciente da minha orientação, acreditava que Deus havia me mudado. Bem, eu também acteditava nisso. E anos depois foi ela quem reconheceu que eu estava muito pressionado, e saiu de casa com uma única exigência: que eu fosse feliz realmente.

Tive outro casamento depois de mais duas recaídas, sempre salvo por uma internação e a ajuda de um grupo de homens e mulheres capazes de me ajudar a reconhecer os sinais da doença e dispostos a me ajudar a qualquer hora e em qualquer circunstância. Eles me ensinaram quase tudo o que eu sei sobre mim.

Casamentos acabam por diversos motivos, e o meu segundo acabou porque, pelo desgaste natural da relação que nós não soubemos administrar, tivemos uma idéia deveras estúpida: por permissão mútua, acabei tendo liberdade de me envolver com quem quisesse. Não preciso nem dizer que deu errado né? Alguém obsessivo e compulsivo com aplicativos de sexo na mão e a liberdade de frequentar saunas gays? É só pensar em crack: agora transforme essa substância em pessoas. É a mesma coisa. No fim, ele não suportou o abandono, eu me sentia abandonado por outros motivos e mais esse relacionamento acabou.

Agora me deixem falar um pouco sobre resiliência: todas as pessoas admiradas por essa características pensaram sim em desistir. Elas queriam muitas vezes estar mortas. Não se enganem: o tal do “forte” é aquele que reconheceu todas as suas fraquezas e decidiu que seguiria em frente com elas. Me lembro bem de uma oração que fiz logo após o meu primeiro divórcio: “Deus, se você vai me mandar para o inferno por ser gay, acho melhor do que me mandar para o inferno por ser um viciado. Eu não vou morrer assim.” Em geral a gente tem medo e vai com medo mesmo, está fraco e vai mais devagar, mas segue. E não se é nenhum herói por causa disso. Outras pessoas tem outros problemas que para elas são tão graves quanto o seu.

E assim eu sigo, vivendo um dia de cada vez, uns dias mais difíceis, outros muito alegres. E para terminar uma história tão pesada, para você que gosta de finais felizes (embora a vida continue, não é o final ainda) aí vai.

Me casei com um cara muito bacana, que passou por coisas terríveis também, mas de outra forma. Acho que pessoas com cicatrizes se entendem, e no nosso caso a alegria é prioridade. Três dias por semana, a nossa filha (filha biológica do primeiro casamento dele) faz a alegria da casa. Minha mãe de 81 anos também mora com a gente e faz tudo ficar mais leve. Ainda 4 gatos e 1 cachorro pug preto completam a população da casa.

Minha recuperação demanda tempo, umas 10 horas por semana, e é para a vida toda. Meu marido chama isso de investimento, e fala que a recuperação é para toda a família, não só para mim.

Minha ex-mulher se casou e foi para o interior. Tem uma filha de 8 anos. Seu marido é uma simpatia e somos muito amigos.

Mas o mais importante: estou vivo, estou limpo só por hoje (cabe a mim fazer todos os hojes assim) e sei que Deus vai me receber em seus braços quando eu morrer, porque Ele é meu Pai e me ama e ninguém me convence do contrário.

E TODO ADICTO PODE SE RECUPERAR SE TIVER ESSE DESEJO. Isso é uma verdade absoluta. Se você conhece alguém que precisa e deseja se recuperar, é só me chamar que eu posso apresentar uma turma muito especial.

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Foto: iStock.com/Getty Images

Vilões x Heróis

Com a morte recente de Stan Lee, o criador de muitos personagens e presidente da Marvel, pensei em contar aqui um pouco do que aprendi com sua obra e de outros cartunistas.

Sempre gostei de histórias de super-heróis. DC, Marvel, quadrinhos da Disney, todos sempre povoaram a minha imaginação. Há uma necessidade enorme em cada um de nós de saber que há alguém mais forte, que pode nos proteger. Pode ser também que queiramos ser heróis, ou mesmo vilões. Não é a toa que os filmes lançados nos últimos 20 anos dos grandes estúdios fizeram tanto sucesso. Aquilo não é totalmente ficção.

Quando penso nisso, me ocorre uma questão: qual é a diferença entre um herói e um vilão? O que define um ou outro? Ambos têm habilidades ou inteligência para fazer coisas extraordinárias. Alguns até foram amigos no passado. Ambos passaram por situações horrivelmente traumáticas. O que os diferencia tanto?

Um vilão responde de maneira diferente de um herói aos estímulos. O Duende Verde perdeu o pai tragicamente, assim como o Homem Aranha perdeu o tio. Mas o Duende Verde culpa o Homem Aranha pela morte do pai, enquanto o Homem Aranha se culpa mas resolve não deixar mais aquilo acontecer. Batman viu os pais serem assassinados e se tornou alguém sombrio, mas aprendeu a usar sua escuridão para combater o crime. O Coringa enlouquece por perder a mulher e o filho no parto e depois ser totalmente desfigurado em um acidente. Acaba se tornando talvez o maior psicopata das histórias em quadrinhos. Super Homem perde todo seu povo, cultura e planeta (pior: nem os conheceu) mas decide abraçar e proteger o planeta que o acolhe. Lex Luthor não se conforma por sua fortuna não poder lhe dar os poderes do Super Homem e se propõe a combatê-lo.

Pra mim é muito clara a diferença entre uns e outros: ganhar ou perder a luta contra si mesmo. E a dor é um fator determinante nisso, pois é o gatilho das coisas mais profundas que existem em cada um. Os vilões são aqueles que enxergaram que a vida foi dura demais com eles, e eles precisariam dar o troco. Dar, até a quem não tem nada a ver com a história, a retribuição por tudo o que sofreram. Os heróis pegaram essa dor, entenderam tudo o que os cercava, trabalharam e devolveram ao mundo a justiça, em contrapartida à injustiça que sofreram.

Em meu processo de crescimento pessoal, em vários momentos tive que encarar uma escolha parecida. A vida acontece conosco, e estejamos preparados ou não, tragédias acontecem. Podemos adoecer e perder tudo, nos sujeitamos a pessoas manipuladoras e cruéis, perdemos entes queridos e tantas outras situações que parecem mais do que podemos suportar. Cada um sabe onde o calo aperta, cada um com seu fundo de poço, e é muito grande a tentação de nos tornarmos vítimas.

Fiz muito esse papel. A vítima é apenas uma vítima, ela não pode fazer nada. Ou pode retribuir na mesma moeda, passar para a frente os “favores” que recebeu. A vítima começa a fazer mais vítimas, e assim se torna um “vilão”. O caminho mais longo e mais trabalhoso, é o de entender que coisas ruins acontecem, e não há culpados (OK, algumas vezes há), mas não se anda para a frente focando nisso. É aí que se descobre que aquilo que dói tanto é uma fraqueza, que deve ser reconhecida, e a situação superada por meio de aceitação e muitas vezes perdão (a si mesmo ou ao outro). Não para ser bonzinho, mas por necessidade, por não querer que doa mais. Por querer ter uma vida plena. Então você trabalha duro naquela situação e ganha resiliência. Ganha força para seguir. Descobre muitas coisas sobre si mesmo. Assim nasce um “herói”.

Agora vamos admitir: tem muita gente com a cabeça “sambada” por aí. Talvez tenhamos um excesso de “vilões”, e muita gente magoando os outros, prejudicando, roubando, matando, fazendo coisas que não têm uma gota de empatia. E nossa tendência é nos revoltarmos, e de fato é revoltante. Mas vilões são sempre vítimas que não conseguem sair dessa posição, e com isso fazem mais vítimas, e tudo se torna uma bola de neve. E temos a impressão de que o mundo se torna cada vez mais um lugar pior, porque o mais fácil é ceder ao mal, seguir o caminho que a dor e o egoísmo nos mostram. Ser sua melhor versão dá trabalho, e machuca talvez ainda mais do que você já está machucado antes de melhorar.

Esse não é um texto de auto-ajuda: é a exposição do que eu vivo. Fui um vilão por muito tempo, e para reverter o processo foi doloroso, dói até hoje. Tem muito aqui ainda a ser trabalhado. Mas quando o Super Homem, o Homem Aranha e o Batman me ensinam a retidão e a vontade de ajudar os outros mesmo que minha vontade seja contrária, eu sei que começarei meu dia engolindo meus moderadores de humor e com uma angústia monstruosa no peito, mas terminarei com a cabeça no travesseiro e a consciência leve. Pois o Duende-verde, o Coringa e Lex Luthor podem ser mais ricos, interessantes e descolados, mas depois de fazerem milhares de vítimas, eles acabam no lugar de onde partiram: um lugar de dor e insatisfação.

Créditos da Imagem: DC Comics e Warner Bros. Entertainment

Ninguém

“Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.” Sigmund Freud

Insanidade em névoa que chega rompendo a barreira do som e esmigalhando o cérebro em mil pedaços. Egocentrismo líquido que perfura a pele e pega carona na corrente sanguínea na velocidade da luz. E de tanto juntar os cacos e tentar colá-los direitinho no lugar, um Frankenstein mal costurado acorda com um raio e se pergunta:

Quem sou eu?

Meio acordado, meio entorpecido, hora se sentindo um astro do rock mas por vezes um verme em um universo decomposto, mesmo assim deslocado em seu sentido. Tentando chegar mais perto da luz de uma estrela que talvez já tenha morrido há muito, muito tempo sem cogitar que isso seja uma possibilidade.

Quem sou eu?

Enquanto olhava por cima dos ombros e das cabeças da multidão, e a angústia lhe assaltava como um homem armado, nada via, nada se mostrava realmente. Apenas as alucinações de sua mente podiam lhe dar um vislumbre da realidade. Mas não era realmente, era?

Quem sou eu?

Sou um humilde violeiro, que canta na rodoviária, e alegra a menina que passa. Nesse momento sou um astro, que brilha no céu da menina que antes estava triste e agora entre seus lábios há uma linda canção.

Sou um verme rastejando entre as folhas mortas, ajudando a decompor em nutrientes o que já não é. E a bela árvore frondosa terá seu alimento. E ninguém saberá da minha existência.

E a insanidade, o egocentrismo e os cacos, tudo mantido ali, onde se possa enxergar. Trabalhoso mas em seu devido lugar. E a humildade então se tornou a mais alta ambição. E todos os medos se tornaram miniaturas, um Gulliver andando entre mini-demônios, a rir do que antes achou que tiraria sua vida.

Quem sou eu?

Eu sou aquele que descobriu que não é ninguém, e aí então encontrou a paz.

Sobre valor

Ultimamente tenho lidado com a questão do amor próprio, e como me afeiçoar aos outros pode ameaçar minha própria auto-estima. Isso pode não ser importante ou mesmo não fazer sentido para quem sempre foi bem resolvido ou quem olha para mim e diz: “Ah, você é padrão de beleza, não sei do que está reclamando.”.

Bom, não é tão simples assim.

Percebo que há um jogo do desinteresse acontecendo nas relações, especialmente entre homens. Parece que o mais inacessível se torna o mais interessante. Mostrar interesse é parecer desesperado, e por isso todos representam um papel bem blasé, tentando não parecer que procuram desesperadamente alguém com quem partilhar a vida. Isso é tão ridículo como rotineiro e assim segue o ciclo da arrogância e da solidão. 

Há quem pense que para se valorizar a aparência é que manda, dá poder. Nada mais natural, em um mundo em que seus posts e selfies definem quem você é (não estou julgando, eu faço muito isso) , em detrimento do conteúdo, da alma e das coisas que se transmitem pelo olhar e pelo toque. É uma grande perda para a nossa civilização. 

Algumas vezes, na minha cabeça ingênua e romântica, fui vítima desses joguinhos de aparência / desinteresse. Mas isso só me fez voltar para mim mesmo e descobrir que, em meio a todo esse ouro de tolo espalhado por aí, há um diamante lapidado pela experiência de doação e decepção aqui, dentro de mim.

Nasci carregando o transtorno da bipolaridade. Levei anos para me adaptar e começar um tratamento eficaz. Sobrevivi a uma doença grave que quase me levou à morte e exige disciplina todos os dias até o meu último. Sou inteligente, rápido e excelente profissional. Envolvo a todos com um afeto incomum e reúno à minha volta pessoas das mais diferentes origens, porque sei encontrar pontos em comum entre elas. Peguei todas as minhas tragédias e as transformei em ensinamentos e até piadas. Sou duro, mas muito duro de roer e carinhoso até com quem não merece. Sei exatamente o que está acontecendo em meu corpo nesse exato momento, e consigo conciliar tudo com o entendimento a respeito do espírito.

Isto posto, digamos que, quem se conhece nesse nível, não vai se deixar levar pela crença de que precisa se esforçar por quem não tem maturidade para assumir o que quer. Sejamos honestos: eu mereço muito. Você merece muito. Não permita que pessoas que tentam se valorizar tentando se mostrar superiores com joguinhos imaturos, roubem de você a sua essência, ou a façam esquecer.

Quem sabe apreciar o seu valor, merece ser valorizado. Quem não sabe, representa rejeito, lixo. Faça a si mesmo um favor: leve o lixo para fora.

DOIS GAROTOS

Se ao menos eu pudesse
Catalogar todas as coisas lindas e tocantes que você me mostra
Seus olhos que brilham como lágrimas de luz
Seu sorriso no qual me perco e então
Já não sei mais onde me encontro
Já não sei mais se quero me encontrar

Corpos imperfeitos numa cama imperfeita
Em um momento perfeito de quase morte orgástica
Nossas peles se fundindo com nossas almas
Numa luta onde ninguém perde
E o repouso para ouvir sua voz calma
Como se nada houvesse a temer

Um sopro de vida inunda minha alma
Ao ouvir que sou seu e dizer que você é meu
Não contratualizado, apenas dois garotos numa praça
E nossas experiências, nossas famílias, nossas tentativas de sobreviver
E nossos medos já sem significado
Se encontrando sob as luzes da cidade

Aquele que não cogita o amor
Mas que me traz à superfície
Com um pedido velado por afeto e prazer
Aquele que me reconhece como alguém
Que pode tirá-lo do eterno ciclo
Sem promessas, mas entregando tudo

Pois nada conosco é pesado
Nada será cobrado
Pois esse é o pacto da doação voluntária
Nos entregamos naturalmente um ao outro
E ninguém pode nos tirar de onde estamos

Já não nos assustamos mais com a velocidade
A hipocrisia ou a intensidade
Já enfrentamos isso antes
Só precisamos saber, afinal
Quando será a proxima vez
E o quanto de nós doaremos então