Simples

Não funcionaram para mim discursos libertários que relativizaram a moral ou a ética. Nem tampouco a opressão de líderes religiosos que tentaram me manter na coleira por buscar sua aprovação paterna.

Não funcionou para mim a busca do amor romântico como única fonte de felicidade. Nem tampouco o ensimesmamento que aponta para a independência como desculpa para o isolamento.

O que me liberta é buscar em mim as respostas para minhas próprias perguntas, tendo como guias as pessoas ao meu redor: umas me mostrando fragmentos de mim mesmo, outras escancarando caminhos e valores dos quais não compartilho. E o amor? Esse me ensina a satisfação em estar ao lado e compartilhar uma vida. Ensina que ao doar, recebo, nem sempre da pessoa para quem doei. Mas muitas vezes de uma plenitude que brota da própria doação.

Simples. Simples até demais. Talvez por isso tenha demorado a cogitar esse modo de vida como algo a ser considerado.

Vilões x Heróis

Com a morte recente de Stan Lee, o criador de muitos personagens e presidente da Marvel, pensei em contar aqui um pouco do que aprendi com sua obra e de outros cartunistas.

Sempre gostei de histórias de super-heróis. DC, Marvel, quadrinhos da Disney, todos sempre povoaram a minha imaginação. Há uma necessidade enorme em cada um de nós de saber que há alguém mais forte, que pode nos proteger. Pode ser também que queiramos ser heróis, ou mesmo vilões. Não é a toa que os filmes lançados nos últimos 20 anos dos grandes estúdios fizeram tanto sucesso. Aquilo não é totalmente ficção.

Quando penso nisso, me ocorre uma questão: qual é a diferença entre um herói e um vilão? O que define um ou outro? Ambos têm habilidades ou inteligência para fazer coisas extraordinárias. Alguns até foram amigos no passado. Ambos passaram por situações horrivelmente traumáticas. O que os diferencia tanto?

Um vilão responde de maneira diferente de um herói aos estímulos. O Duende Verde perdeu o pai tragicamente, assim como o Homem Aranha perdeu o tio. Mas o Duende Verde culpa o Homem Aranha pela morte do pai, enquanto o Homem Aranha se culpa mas resolve não deixar mais aquilo acontecer. Batman viu os pais serem assassinados e se tornou alguém sombrio, mas aprendeu a usar sua escuridão para combater o crime. O Coringa enlouquece por perder a mulher e o filho no parto e depois ser totalmente desfigurado em um acidente. Acaba se tornando talvez o maior psicopata das histórias em quadrinhos. Super Homem perde todo seu povo, cultura e planeta (pior: nem os conheceu) mas decide abraçar e proteger o planeta que o acolhe. Lex Luthor não se conforma por sua fortuna não poder lhe dar os poderes do Super Homem e se propõe a combatê-lo.

Pra mim é muito clara a diferença entre uns e outros: ganhar ou perder a luta contra si mesmo. E a dor é um fator determinante nisso, pois é o gatilho das coisas mais profundas que existem em cada um. Os vilões são aqueles que enxergaram que a vida foi dura demais com eles, e eles precisariam dar o troco. Dar, até a quem não tem nada a ver com a história, a retribuição por tudo o que sofreram. Os heróis pegaram essa dor, entenderam tudo o que os cercava, trabalharam e devolveram ao mundo a justiça, em contrapartida à injustiça que sofreram.

Em meu processo de crescimento pessoal, em vários momentos tive que encarar uma escolha parecida. A vida acontece conosco, e estejamos preparados ou não, tragédias acontecem. Podemos adoecer e perder tudo, nos sujeitamos a pessoas manipuladoras e cruéis, perdemos entes queridos e tantas outras situações que parecem mais do que podemos suportar. Cada um sabe onde o calo aperta, cada um com seu fundo de poço, e é muito grande a tentação de nos tornarmos vítimas.

Fiz muito esse papel. A vítima é apenas uma vítima, ela não pode fazer nada. Ou pode retribuir na mesma moeda, passar para a frente os “favores” que recebeu. A vítima começa a fazer mais vítimas, e assim se torna um “vilão”. O caminho mais longo e mais trabalhoso, é o de entender que coisas ruins acontecem, e não há culpados (OK, algumas vezes há), mas não se anda para a frente focando nisso. É aí que se descobre que aquilo que dói tanto é uma fraqueza, que deve ser reconhecida, e a situação superada por meio de aceitação e muitas vezes perdão (a si mesmo ou ao outro). Não para ser bonzinho, mas por necessidade, por não querer que doa mais. Por querer ter uma vida plena. Então você trabalha duro naquela situação e ganha resiliência. Ganha força para seguir. Descobre muitas coisas sobre si mesmo. Assim nasce um “herói”.

Agora vamos admitir: tem muita gente com a cabeça “sambada” por aí. Talvez tenhamos um excesso de “vilões”, e muita gente magoando os outros, prejudicando, roubando, matando, fazendo coisas que não têm uma gota de empatia. E nossa tendência é nos revoltarmos, e de fato é revoltante. Mas vilões são sempre vítimas que não conseguem sair dessa posição, e com isso fazem mais vítimas, e tudo se torna uma bola de neve. E temos a impressão de que o mundo se torna cada vez mais um lugar pior, porque o mais fácil é ceder ao mal, seguir o caminho que a dor e o egoísmo nos mostram. Ser sua melhor versão dá trabalho, e machuca talvez ainda mais do que você já está machucado antes de melhorar.

Esse não é um texto de auto-ajuda: é a exposição do que eu vivo. Fui um vilão por muito tempo, e para reverter o processo foi doloroso, dói até hoje. Tem muito aqui ainda a ser trabalhado. Mas quando o Super Homem, o Homem Aranha e o Batman me ensinam a retidão e a vontade de ajudar os outros mesmo que minha vontade seja contrária, eu sei que começarei meu dia engolindo meus moderadores de humor e com uma angústia monstruosa no peito, mas terminarei com a cabeça no travesseiro e a consciência leve. Pois o Duende-verde, o Coringa e Lex Luthor podem ser mais ricos, interessantes e descolados, mas depois de fazerem milhares de vítimas, eles acabam no lugar de onde partiram: um lugar de dor e insatisfação.

Créditos da Imagem: DC Comics e Warner Bros. Entertainment

Tem mico no lixo!

Vamos falar sobre informação?

miconolixo

Sexta-feira passada, saindo da minha psiquiatra ali na Praça JK (bairro Mangabeiras / Sion, em Belo Horizonte), vi um grupo pequeno esperando o ônibus no ponto, interessado em alguma coisa. Me aproximei e, para minha surpresa, dois micos estavam na lata de lixo do ponto, comendo restos de comida que haviam ali. Uma moça ficou com pena e cortou, com uma chave, a maçã que trazia na bolsa para alimentá-los. Imediatamente eles se ocuparam das metades que ganharam e fizeram a alegria dos observadores. Naturalmente tirei a foto acima, de um deles, porque não é todo dia que se vê um mico descer das árvores da praça para procurar comida no lixo.

Qualquer espécie animal, na escassez de alimento, vai procurá-lo em outro lugar. Faz parte do instinto de sobrevivência, e isso é muito fácil de entender. Flebótomos (mosquito-palha) vieram buscar sangue nos mamíferos das cidades após o desmatamento, e temos a leishmaniose. Ratos migraram para os esgotos das metrópoles, e temos uma cidade deles, com população muito superior à nossa, debaixo dos nossos pés. Patos migram para fugir do inverno no hemisfério norte. O ser humano, na falta de conhecimento e acesso, busca nas redes sociais notícias instantâneas prontas para serem digeridas e compartilhadas. É o milagre da multiplicação.

Um amigo uma vez me disse que a informação que um homem do século XVIII absorvia em sua vida inteira, é hoje captada por nós em apenas 24 horas. Isso estressa, faz com que estejamos cada vez mais cansados e ansiosos, pois a velocidade das coisas nos força a acompanhar. Mas é só pensar em 30 anos atrás: líamos jornais e revistas, assistíamos televisão e ouvíamos o que os amigos, família e vizinhos tinham para contar. Essas eram nossas fontes. Hoje um vídeo é acessado de qualquer lugar, vemos fotos rapidamente e lemos textos na palma da mão. Isso levou a um senso de urgência tão grande, que não temos tempo para livros, textos muito grandes (um texto de mais de dois parágrafos é chamado de textão) ou mesmo vídeos com mais de 7 minutos. Para nos alimentarmos de informação, precisamos consumir esse “salgado” para podermos pegar o outro que passa na bandeja a seguir. Não conseguimos mais nos assentar para uma refeição.

Portanto, os links de textos no Facebook, comparáveis a manchetes jornalísticas, são uma forma ideal para se informar. Muitas vezes nem se entra na chamada para ver o texto completo. Mesmo quando se lê o texto, ele pode ser uma notícia alterada ou inventada. Uma foto pode ser uma montagem ou algo tirado do contexto. Esse tipo de coisa requer análise, buscar fontes fidedignas ou ao menos digitar no Google “hoax” ou “fato ou fake” e a frase a seguir para confirmar a veracidade. Mas é muito difícil, não dá tempo, além do fato que a maioria dessas chamadas são inflamatórias, trágicas ou cômicas, e isso satisfaz a nossa necessidade de emoção nessas vidas abarrotadas de rotina que vivemos. Por isso, é um sucesso!

Somos primatas consumindo lixo. Descemos das árvores do conhecimento, por ser muito trabalhoso procurar por esse ou aquele fruto ou um inseto escondido, gastando tempo. Além de nos arriscarmos a cair de nossa posição, pois o verdadeiro conhecimento às vezes mostra quem somos, e isso não é agradável. Preferimos descer pois no lixo tudo é mais colorido, perto do chão é mais seguro. Não importa que seja lixo: de vez em quando tem coisa gostosa, e afinal de contas não faz mal, faz? Nem percebemos que nossa mente vai se modificando, e com o tempo vamos ficando medíocres, replicando coisas que foram inventadas exatamente para nos manobrar em uma determinada direção.

Perguntar “Será?”, ou “Quem disse isso?”, ou dizer “Não acredito!” só serve para interromper a conversa. O propósito da conversa é reclamar, expressar choque ou rir da situação. Pensar está fora de moda. Não me espanta que poesia seja algo totalmente obsoleto para a maioria das pessoas. Parece que quem gosta de poesia é poeta. Você precisa ler soltando a imaginação, aberto para receber a subjetividade e ruminar aquilo, deixar lhe nutrir, ou mesmo rejeitar com veemência, por não se identificar. Mas você precisa entender e reagir! Quando a única coisa que se sabe fazer é receber e replicar, algo como poesia não faz, absolutamente, sentido algum.

Não consigo imaginar que destino pode ter uma sociedade assim. Mas tento me lembrar que na história do mundo, sempre que algo seguia em uma direção muito calamitosa, o resultado era uma crise seguida de uma revolução. Foi assim com a cultura no Iluminismo e a tecnologia na Revolução Industrial. O difícil é saber se estamos à beira dessa revolução ou se só acabamos de entrar na idade das trevas. Fato é, não precisamos nos deixar enganar. Quando muita gente pensa diferentemente de você, é fácil achar que você está equivocado. Mas como dizia Clarice Lispector, “O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar”. E micos no lixo, meu caros, é óbvio. Ululante.

Sob o Domínio do Mal

“Mas vós mesmos fazeis a injustiça e fazeis o dano, e isto aos irmãos.” I Coríntios 6:8

Farto de toda essa liberdade de expressão condicional
Diga isso, escreva aquilo, não ofenda ninguém
Não diga bunda, sexo ou foda
Seja um bom menino
Enquanto nós dizemos em palavras doces
A morte dos inocentes é efeito colateral
E a culpa do trânsito é que pobre agora tem carro

Farto de toda essa hipocrisia
Morando nessa gaiola de vidro
Amordaçado com um lenço de seda
Ansiando um vômito que deve ser
Cuidadosamente acondicionado em um saquinho
De ver aquilo que mais me choca
Ser difundido abertamente

Pois eles e nós não existe
Somos todos iguais perante a lei
Mas não somos realmente, somos?
Pois o meu amor é uma forma de maldição
A cor dele o torna menos que uma pessoa
A genitália dela a torna um prejuízo
Mas o meu coração, ah, esse
Quer gritar histericamente toda essa injustiça

Controle-se! Comporte-se! Seja civilizado!
Você precisa viver em sociedade
Mas nós podemos tudo
Nós temos o metal, que não é vil
Ele vale mais que a sua vida
Nós temos a aceitação
Do deus patenteado, que indicava antes o monarca
Nós somos os porta-vozes de Deus
Dobre-se!

A travesti pode sangrar
Desde que não seja em minha calçada
O filho do pedreiro pode sonhar
Apenas em ser um bom pedreiro um dia
Aqueles pederastas podem viver
Desde que invisíveis, como deve ser
As reprodutoras devem se limitar
A cuidar das crias que pariram

Farto de aceitar
Todas essas coisas como normais
Vivendo sob o domínio do mal
Sorrindo como se estivesse feliz

Afinal o sol brilha
O pássaros cantam
A chuva cai
O que poderia estar errado?

(Enquanto isso morre um menino de 13 anos na guerra do tráfico)

Isolamento

“Is it enough
To live in hope
That one day we’ll be free
Without this fear
I’m going out and carrying on as normal”
Pet Shop Boys – Discoteca

Eles têm os olhos sombrios
Eles vem com as cabeças baixas
Eles olham discretamente de lado
Ameaçadores, instinto assassino nos olhos

A torneira pinga, pinga, pinga
Como passos firmes e constantes
Toda a casa faz sons ameaçadores
E a luz que vem da rua, azulada, forma monstros no teto

A rua escura envolve com seu manto
E quem está à espreita nas moitas?
Quem pode estar dentro daquele carro?
O que está acontecendo naquele lote vago?

Gatilho disparado nos cantos remotos do subconsciente
Derrubando uma alma diretamente no submundo
Sonhos, realidade, em um só tecido íntegro
Cerzido pela linha do isolamento

Como droga, a ativar ao extremo o cérebro
Mas sem prazer algum afinal
O medo, nascido de seus piores pesadelos
Tendendo às mais obscuras suspeitas

Sonho? Pesadelo? Ilusão? Criatividade?
Resultado de uma sociedade violenta?
De que ainda não se suspeitou
Dentre todas as possibilidades de suspeita?

A dona de casa pensa nos novos moradores da rua
As minorias temem uma ameaça fascista
Os ricos temem o comunismo iminente
O amante teme a traição de seu acordo

É possível viver assim com medo?
Olhar por cima do ombro a cada passo?
É possível viver talvez sem medo?
Materializar a idéia impossível da felicidade?

A Ilha

Medo
E todos para dentro ao escurecer
Medo
E calçados apropriados para as pedras
Medo
E antibióticos ao menor sinal de gripe
Medo
E o receio de cumprimentar estranhos
Medo
E ódio a religiões que não conheço
Medo
E distância daqueles homossexuais
Medo
E proíbam, proíbam, proíbam, proíbam!
Medo
E uma ilha cercada de gente igual a mim
Afundando
Afundando
Afundando

* Texto publicado originalmente no Facebook em 06/10/2015.

Digital (insights interrompidos)

Emergir
Das montanhas de lixo midiáticas que me assolam como onda a cada milissegundo
Nadar
Entre todas as opiniões que insistem em ser ouvidas apesar de sua insignificância
Chegar
À praia de exibicionismo com público cativo superlotada de lugares-comuns
Beber
Dessa água que prometi nunca beber e passar mal a noite inteira

Ao longe se aproxima uma tempestade
Algo vindo do céu evaporado da terra
Pura ansiedade dos incautos que querem ser livres
Travestido de algo novo, algo que trará uma nova consciência

Mecanismos de controle fascistas
Agora parecem brincadeiras de criança
Onde estou, o que fiz, com quem fui
Impresso eternamente no éter digital
O imenso mar de dados, pedaços de alma
Dragados e transformados em pilhas de ouro

Métodos sistemáticos de relacionamento
Você viu? Respondeu? Por que não?
Egos gigantescos se degladiando
Por fotos, textos, comentários, atenção
Toda uma sociedade na primeira infância
Toda uma nova referência de normalidade

Emergir
Em uma realidade onde os valores esquecidos foram resgatados
Nadar
No mar revolto mas cuidadosamente explorado do meu ser
Chegar
A um lugar onde a paz foi construída sem precisar de público
Beber
Da água docemente amarga e pura da verdade sobre mim mesmo

E quando seu ser pedir atenção
Cheio de vazios não supridos
Quando a doce ilusão puder aplacar essa sede
Impedindo seu olhar de se voltar para dentro
Para onde você vai correr?

Açúcar e ETs

Açúcar é cocaína! Todas as pessoas do mundo são celíacas e intolerantes à lactose! Carboidratos são veneno! Pensamentos políticos opostos são inaceitáveis! Você não pode ser gordo!

Para minha cabeça de quem foi criança nos anos 80 é muito estranho imaginar que em 2018 teríamos discussões acirradas sobre temas que não têm base científica ou lógica, e que seríamos escravizados por idéias erradas só por serem hiper divulgadas. É o império da burrice. O reinado dos idiotas espertinhos.

Engraçado constatar que nos anos 80 estávamos errados sobre tudo: nossas naves espaciais eram cheias de botões e hoje nossos celulares não os têm; estaríamos nos comunicando com ETs e nossas roupas seriam prateadas, mas reciclamos a moda e procuramos por bactérias no espaço; o mundo seria mais frio e as pessoas distantes, no entanto a tecnologia nos aproxima; a lógica e a ciência seriam os pilares da sociedade, no entanto a ignorância impera soberana.

Nosso presente, meus amigos, é uma vergonha de futuro. Nossos anseios regrediram para a idade média.

Sobre valor

Ultimamente tenho lidado com a questão do amor próprio, e como me afeiçoar aos outros pode ameaçar minha própria auto-estima. Isso pode não ser importante ou mesmo não fazer sentido para quem sempre foi bem resolvido ou quem olha para mim e diz: “Ah, você é padrão de beleza, não sei do que está reclamando.”.

Bom, não é tão simples assim.

Percebo que há um jogo do desinteresse acontecendo nas relações, especialmente entre homens. Parece que o mais inacessível se torna o mais interessante. Mostrar interesse é parecer desesperado, e por isso todos representam um papel bem blasé, tentando não parecer que procuram desesperadamente alguém com quem partilhar a vida. Isso é tão ridículo como rotineiro e assim segue o ciclo da arrogância e da solidão. 

Há quem pense que para se valorizar a aparência é que manda, dá poder. Nada mais natural, em um mundo em que seus posts e selfies definem quem você é (não estou julgando, eu faço muito isso) , em detrimento do conteúdo, da alma e das coisas que se transmitem pelo olhar e pelo toque. É uma grande perda para a nossa civilização. 

Algumas vezes, na minha cabeça ingênua e romântica, fui vítima desses joguinhos de aparência / desinteresse. Mas isso só me fez voltar para mim mesmo e descobrir que, em meio a todo esse ouro de tolo espalhado por aí, há um diamante lapidado pela experiência de doação e decepção aqui, dentro de mim.

Nasci carregando o transtorno da bipolaridade. Levei anos para me adaptar e começar um tratamento eficaz. Sobrevivi a uma doença grave que quase me levou à morte e exige disciplina todos os dias até o meu último. Sou inteligente, rápido e excelente profissional. Envolvo a todos com um afeto incomum e reúno à minha volta pessoas das mais diferentes origens, porque sei encontrar pontos em comum entre elas. Peguei todas as minhas tragédias e as transformei em ensinamentos e até piadas. Sou duro, mas muito duro de roer e carinhoso até com quem não merece. Sei exatamente o que está acontecendo em meu corpo nesse exato momento, e consigo conciliar tudo com o entendimento a respeito do espírito.

Isto posto, digamos que, quem se conhece nesse nível, não vai se deixar levar pela crença de que precisa se esforçar por quem não tem maturidade para assumir o que quer. Sejamos honestos: eu mereço muito. Você merece muito. Não permita que pessoas que tentam se valorizar tentando se mostrar superiores com joguinhos imaturos, roubem de você a sua essência, ou a façam esquecer.

Quem sabe apreciar o seu valor, merece ser valorizado. Quem não sabe, representa rejeito, lixo. Faça a si mesmo um favor: leve o lixo para fora.