Natureza exata

Tanta dor

Cheia de tanta euforia e choro de felicidade
A dor que se vê porque o riso é tão alto
Como se quisesse calar alguma coisa
Sufocar tudo

Tantos segredos
Cheios de raízes entrelaçadas no subsolo
Tomando conta de tudo, ocultos da luz do Sol
Guiando todos os caminhos
Opressivamente insuspeitos


E a raiva
Que já não se sabe mais de que, reprimida
Por trás dos olhos serenos e bondosos
Manipulando uma passividade agressivamente tóxica

Medo
Por trás de toda essa estrutura degradada
Medo que não paralisa, pelo contrário
Faz fugir o mais longe possível
Atacando quando detectado
O velho amigo do velho adicto
Parasitando a alma que já não conhece a paz
Até o dia de hoje

Estrelas

Estrelas de pequena grandeza
Iluminam o meu céu
O mundo não as vê
Desprezíveis, deslocadas de constelações
Ofuscadas pelas luzes da cidade

Estrelas assim são assim ignoradas
Mas sua luz me guia pela noite
Seu sorriso belo e iluminado
Inunda de um amor que poucos conhecem
Apenas os iniciados saberiam 
Aqueles que viram a morte de perto
E seu beijo deixaram para depois

Estrelas brilham e muitas já não existem
E até hoje sua luz chega até nós
Como consequências boas de um plantio duro
Como lembrança de um sorriso de mãe na infância
Mas sua luz nunca se apagará

Habito entre elas
No silêncio sem ar do espaço sideral
E emano tudo o que delas recebi
Porque sou feito do mesmo fogo
E um dia morrerei sem que o mundo me veja

Criança

Qual um choro de imensa saudade
É essa falta que sinto de mim mesmo
Culpo a ti, culpo o trânsito, culpo a lua
Nesse imbróglio de sentir tanta raiva
Lançando dardos contra o alvo errado

Qual meu corpo em um moedor de carne
É o resultado de tal distorção
Sob o sol impiedoso ou o frio implacável
Minha mente projeta terríveis tramas
Traição, vingança e violência gratuita

Me sento na praça e aos prantos rogo a Deus
Que me dê sabedoria e me tire desse estado
Em que ao olhar para ti, amor meu
Te odeio tanto quanto odeio a mim mesmo
E te rejeito com minha aversão própria

Escrevo cartas a mim mesmo
Tentando encontrar as ideias racionais
Que perdi ao longo do caminho
Nesse processo de evoluir até a psicose
E encontro enfim a verdade

Teu amor, criança minha que mora aqui
É a coisa mais doce que conheço
Te procurei por toda parte, fora de mim
Tu sempre estiveste aqui presente
Reprimida por quem vais te tornar

Pois vem pra fora
Desfrutar do teu próprio amor
O mundo não entende, realmente
Mas agora o sabes bem
E sabes fabricar o teu próprio mundo perfeito

Imperfeito homem livre

“O amor é mestre, mas é preciso saber adquirí-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de fato, não por um instante, mas até o fim.” Fiódor Dostoiévski

Um belo dia de esquecimento
Quando tudo o que se sabe do que se sabia ontem é que já não se sabe mais o que se saberá amanhã
Como nossas impressões de infância, quando parecíamos saber de tudo e adivinhar todo o resto

Imperfeito homem livre
Gloriosamente defeituoso sob o signo da falha despreocupada que se sabe que, em tempo, se aperfeiçoará em outras falhas menos torpes
Como a evolução, que traz a consciência de se ser menor a cada dia, por se saber medíocre simplesmente por ser humano

Água gelada na garganta
Que dói ao matar a sede por lembrar que se foi privado por tanto tempo de algo tão essencial, no choque com a sequidão que mata
Como o conhecimento ao se chocar com a ignorância, que o rejeita implacavelmente, pois a dor trazida por ele é imensa

Amor distante do sonho
Que mostra que a carência não será preenchida por ele, e sim pelo esforço de se doar a cada dia a quem está pelo caminho, sedento e faminto de tantas, tantas coisas
Como Francisco e seus bichos, Teresa e seus pobres, Fiódor e seus leitores e eu e meus irmãos, tão quebrados quanto eu

E o medo se distância
A arrogância morre de fome
A raiva perde o sentido
Quando se para de lutar
Contra o objeto de sua impotência
Para só então vencê-lo

Tabula rasa

“Vacant lot” are the saddest words in English language. I don’t know why.
Melanie Bird – Legion, season 2

Vento forte, dizem que de Deus
Me arranca dos braços e pernas partes
Que não deveriam me pertencer
Um peso que não me pertence
Desaparece no chão imundo dos meus caminhos

Acostumado a andar em um labirinto
Sem solução aparente, sem saída
Me vejo em um campo aberto
E já não sei para onde ir agora
Escolhas existem afinal, quem diria
Vazio, o espaço para construção

O céu de um azul profundo
Nunca me pareceu tão triste
Ele não significa nada
Exceto que a luz do sol se espalhou pela atmosfera
E mesmo em meio a essa crise de fé
Já não há crise, pois não há nada

Quando todo o mal me fora arrancado do peito
Não soube o que fazer com o vazio deixado por ele
Atônito, com toda uma história por escrever
Pelo menino de meia idade, que enfim cresceu

Passo
A passo
Na levada
De compassados passos
Vendo
Revendo
Vivendo
Este
Outro dia
A realidade
A se manifestar
A cada passo

Então enfim floresce da alma
Um gigantesco e confuso jardim
Rico, exuberante, selvagem
A ser podado, ramo a ramo

Já há alguém para além do azul profundo
E companheiros que compartilham
Do imenso trabalho pela frente
Da vida que brota de tamanho vazio
Não somos iguais
Mas seguimos pela mesma vereda

E se à frente nos espera
A tragédia ou a glória
O amor ou a solidão
Estes não podem mais determinar
Os rumos que seguiremos então

Na tabula rasa, com minhas mãos escrevo
Uma história de minha própria criação
Bancando cada consequência
Saboreando cada doce tropeço

Poser (7,5 gigalikes)

Amo essa era! Todo mundo pode ser exatamente o que quer ser. E ter seus fãs de graça: desde que não coma carboidratos e levante 10.000 quilos na academia, usando a linguagem que todo mundo usa, tentando bater uma meta de seguidores crescente. Através da tela, e nessas condições, todo mundo pode ser quem quiser.

Mais uma selfie. Mais uma lacração. Mais uma língua de fora “pras inimiga”. Pagando mais bundinha pro insta porque minha auto-estima é diretamente proporcional à quantidade de likes que recebo. Mas sou autêntico. Ninguém nunca fez o que eu faço. Sou mais ousado porque expus um centímetro de virilha a mais que a musa fitness.

E estou tanto tempo olhando para a tela, que minha coluna cervical já se adaptou a andar torta. E estou sempre tão ocupado com isso, que já não escuto se minha alma pede por socorro. E até nisso os coaches vão me ajudar a encontrar o meu caminho, acabei de me inscrever num seminário.

Postei uma foto com aquele cantor famoso que encontrei na rua, só que não conheço nenhuma música. Mas me rendeu mais de 200 likes. Quem sou eu? Ah, isso não importa. Importa que todo mundo veja o quanto sou incrível, mesmo que eu mesmo não perceba. Mesmo que o mundo inteiro me diga a cada segundo o que preciso fazer pra seu eu mesmo. E quem eu pareço para o público, é o que sou. Não há mais nada a se saber além disso. Nem por mim mesmo.

Alma (luzes)

The city is my church
It wraps me in the sparkling twilight
M83 – Midnight City

O frio corta como uma faca afiada. As luzes da cidade fingem aquecer, e eu finjo não saber. Os cães se silenciaram por toda a vizinhança, e eu sozinho com meus pensamentos, talvez Deus. Os gatos passam silenciosos ao redor. Tudo é paz, e uma serenidade cuidadosamente cultivada me invade por um instante.

Já me sei desiludido o bastante para saber que o amanhã será uma grande surpresa. Planos? Certamente, mas sem apego. Tudo pode mudar num estalar de dedos. E as luzes me iluminam sem calor ou esperança. A alma emite sua luz teimosa, essa que quase se apagou por tantas vezes. Voltava então a brilhar mais forte.

E a luz da sabedoria, que vem diminuir a alegria juvenil, mostra o que eu preferia não enxergar. Sonhos mudam de rota em direção à complacência. Desejos com o pé no chão, por que precisa ser assim?

Projeto sombras na parede, como uma brincadeira, pois essa é a realidade mais familiar. Me encolho de medo ao olhar para a vida como é sob o sol. Luz e sombra me trazem um vislumbre do que poderia estar bem diante do meu nariz, se eu tivesse essa coragem.

E a noite e a cidade me embalam em seu manto gélido e protetor. Ergo firmemente cabeça, a luz do dia trará mais um desafio, por certo.

Vou me deitar, consciência limpa e sonhos de curto alcance. Por enquanto é assim. Minha alma incandescente repousa em si mesma: não há outro pouso para todo esse cansaço.

Identidade

“Home is where the heart is” Band of Horses

Os vencedores não estão nos pódios. Eles se sentam em círculo, tímidos, olhando para o chão, para os olhos ansiosos uns dos outros, ou de cabeça erguida fitando o vazio, por vezes perdidos em seus pensamentos. São mendigos, empresários, diaristas, cientistas e trabalhadores braçais.

Meu nome é…

Há quanto tempo não se lembrava de seu nome antes que começasse a dizê-lo todos os dias? Havia se acostumado à não identidade, à não vida, à não dignidade, a não se perceber como ser humano. Atrás da recompensa, cada vez mais mirrada, vôos cada vez mais baixos, um mundo cada vez menor.

Eu sou…

Quem sou? Por tanto tempo fugi de mim mesmo, anestesiando a dor e morrendo sem sentir, me afastando de minha verdadeira identidade fragmentada e esquecida, por não ser mais importante. Onde estaria tudo o que aprendi um dia sobre mim mesmo? E como sou capaz de ser tão egocêntrico sem saber quem sou?

Estou…

Então entendo como estou hoje. Antes, quando os dias eram todos iguais, não havia maneira de avaliar isso. Hoje sei o que aconteceu ontem. Hoje choro de dor e rio de alegria. Hoje sei para onde ir. Hoje não tenho nada mais a temer.

Estamos juntos!

Os vencedores como eu, me olham nos olhos. Foram derrotados inúmeras vezes, das maneiras mais humilhantes, e não se sabia onde estavam. Eram a escória. Eram a vergonha. Eram o refugo. Hoje são tudo o que tenho. Hoje são meu primeiro pensamento pela manhã. Meus irmãos e irmãs, em quem encontro a sabedoria.

Só por hoje!

Fingir não ver

“For our love, for our fear
For our rise against the years and years and years” Bush – Machinehead

Abaixar os olhos enquanto atravessa os séculos dos séculos. Fingir não ver todo esse sangue derramado pelos deuses terrenos. Anestesiar a alma de uma geração inteira que tem certeza de que foi entorpecida mas sabe que é melhor assim, não é?

E o grito sai abafado pelas mãos de todas as aias diabólicas colocadas bem aqui dentro. A consciência nunca deixará de cuidar de todos vocês, e suas paranóias cuidadosamente plantadas por um ambiente torpe. De tanto se debater, os braços e pernas já arroxeados, o cansaço toma conta do espírito e diz: desista.

Me faço de bobo enquanto finjo achar tudo isso normal. Tento encontrar um lugar para me encaixar, na esperança de passar despercebido com um meio sorriso. Medo de falar, medo de olhar para as pessoas, medo de sair correndo e ser mal interpretado, medo até de saber um pouco mais. No estado atual das coisas, qualquer questionamento se torna traição. Olhando por cima do ombro, vamos em direção ao desconhecido, porque o conhecido é repulsivo.

Vou fazer poemas sobre o desespero e a ansiedade, porque o amor já não inspira e ficou fora de contexto. Saiu de moda. E condenar todas as palavras que eu disse ao esquecimento, e os textos, considerar proscritos. Já não há sonhos a respeito do afeto. Contratamos um coach para administrar sonhos objetivos, emprendedores e corporativos. Contratamos alguém para quase tudo, ou tudo o que interessa.

Todas as vozes que me assediam em uníssono, a lançar meu corpo em uma rajada de vento sobre as lanças dos portões e os tetos de vidro das igrejas. Gradativamente paro de me importar. Talvez seja essa a tônica da felicidade: parar de sentir essa tal de dor. Pois ser feliz seria ser indiferente. E não é que isso tudo faz sentido, afinal?

Interno

What you got they can’t deny it, can’t sell it or buy it
Walk on, walk on
Stay safe tonight
U2

E todas as coisas que os outros fazem, que você não pôde fazer
Todas as coisas que os outros possuem, que você não pode ter
Todas as coisas que os outros dizem, que você não tem como articular tão bem…
Tudo aquilo que te faz sentir inferior a elas, especialmente no que as aparências mostram cada vez mais evidentemente, em um mundo de compartilhamentos instantâneos e reações imediatas, e principalmente conclusões apressadas…

Lembre-se:
Elas não têm a sua história, e portanto não poderiam alcançar

Todas as coisas que você faz, do seu jeito único e especial
Todas as coisas que você possui, que não pode ser visto ou armazenado…
Todas as coisas que você diz dentro de você, fruto do seu jeito singular de ver o mundo, sem seguidores mas mudando seu mundo para sempre…
Tudo aquilo que te faz ser quem é, sem aparências fotografáveis ou compartilhaveis, perceptível apenas para quem olha dentro dos seus olhos. É a luz perfeita de sua aura luminosa, construindo incansavelmente um amanhã sólido e cheio de vida real…

Isso não poderá nunca ser visto, medido, vendido, roubado ou comparado. Essa é a sua alma, da cor que você a pinta para si mesmo. E que seja bela como a luz dourada da aurora, visível apenas para quem está dentro do mundo, o seu mundo.