Aprendendo a ser só

Sempre ouvi na terapia que nós viemos sós e sós nos vamos. A terapia muitas vezes foi uma experiência que, quando eu resistia ao que estava aprendendo com meus erros e acertos, julgava um exercício de se tornar egoísta. E muitas vezes continuava com os velhos padrões de pensamento e atitudes, só para mais tarde, já com o conhecimento sobre mim do que daria errado, percebia que isso só me causava mais sofrimento. Meu professor de paleontologia (um argentino figuraça que era difícil entender a fala) sempre dizia: “Cuidado para não se apaixonar por sua teoria, você pode ter que abandoná-la.”.

A noção de que para se viver a dois deve-se ter muito em comum pode ser perigosa. É como a energia nuclear: pode-se criar outra forma de energia ou fazer uma bomba capaz de destruir e deixar consequências nefastas por anos. Afinidade é sempre bom. Rende bons assuntos, boas risadas, saídas para lugares em que ambos se divertirão, filmes e séries maratonados o final de semana inteiro, uma delícia. O problema é quando eu acho que sou o outro. Ou que o outro sou eu. É uma porteira aberta para o controle, as exigências de que o outro reaja como eu, a falta de respeito com a individualidade, ou a incompreensão do que para mim é a pessoa agindo como se não fosse ela mesma. Se tem uma coisa que aprendi é que não há nada que o outro me ofereça que no seja ele mesmo. Absolutamente nada.

Descobri que para conviver com o outro (e o outro pode ser família, amigos, relacionamento amoroso, ou o que mais inventarem) é preciso aprender a ser só. Entender que em algum ponto eu começo e o outro termina, identificar onde isso fica e NÃO ULTRAPASSAR NUNCA. Ou reconhecer quando isso aconteceu, dar a meia volta e tentar reparar os danos. Isso é uma afronta, uma violência. Não posso determinar os rumos da vida de ninguém, criticar seus valores ou impor meus objetivos. E Deus sabe que fiz isso. E como fiz!

Mas de nada adianta esse mea culpa sem continuar a caminhada com outra atitude. E isso para mim é aprender a viver só. Entender que quem supre minha carência sou eu, e não há nada que supra mais a carência do que dar sem esperar nada em troca, pois isso me faz sentir amor puro vindo de mim mesmo. Cuidando da minha saúde mental e física, sabendo que só uma pessoa inteira pode se relacionar com outra. E entendendo de uma vez por todas que ninguém vai reagir como eu espero e que não sou referência para absolutamente nada.

Eu sou eu. Meu universo, meus valores, minhas ambições, minha vida. E que não devo me atrever a entrar em outro universo sem permissão ou impor o movimento dos planetas que rege o meu ao outro. E que ninguém se atreva a tentar mexer no meu. Adaptação, negociação, e ajustes, são básicos e necessários, caso contrário é melhor estar só de fato. Mas para estar com o outro é melhor estar bem só. Caso contrário eu não tenho nada a oferecer. Apenas tirar.

Da necessidade de lacrar

Eu já estive lá. A maioria hoje está nesse lugar. Há uma resistência forte a permanecer ali, mas cada vez um número maior de pessoas migra para lá, que na verdade é um estado das coisas, um estado de espírito. Para mim, é uma situação de tamanha turbulência mental, retroalimentada pelos demais, que se equipara a uma prisão. Uma daquelas que estão cheias de conflitos e tensão, só que com uma bela roupagem. É o mundo maravilhoso das selfies e memes agressivos em resposta às situações cotidianas da vida. Eu honestamente não recomendo a ninguém.

Nada atualmente é considerado como ocorrido se não foi divulgado. Nem mesmo se arrumar para ir ao trabalho, malhar em uma academia ou estudar para uma prova. Tudo é documentado e “tagado” com palavras chaves para atrair desconhecidos. O que o comércio soube muito bem aproveitar para a divulgação de seus produtos, é utilizado na auto-divulgação para receber curtidas e elevar a autoestima.

É preciso lacrar. Mostrar um corpo incrível igual ao dos musos e musas fitness, soltar um comentário espirituoso sobre algum acontecimento, fotografar o que quer que seja de maneira original, copiado da originalidade alheia. É preciso lacrar. Sambar na cara da sociedade. Se sentir melhor que todos os outros. Construir uma autoestima alta com base no reconhecimento alheio. Bem, eu tenho uma má notícia: isso não é construir autoestima.

Quanto mais curtidas você tem, mais quer. Vai sendo elevado a um patamar em que descobre que outros tem muito mais reconhecimento que você. Então persegue esse outro nível. Ousa mais, passa mais tempo do dia dedicado à divulgação, transforma isso numa verdadeira obsessão: tornar uma vida comum algo extraordinário, digno de ser divulgado. Consome um bocado de energia e passa a já não ter um minuto em que pára para ver uma flor sem puxar o celular.

Autoestima é gostar de você do jeito que você é. Cuidar de você sem precisar divulgar, ou se comparar ao outro. Autoestima é, talvez, lacrar sem querer. Mas não fazer disso seu objetivo. É parar de repente e ver todas as pessoas na rua de cabeças curvas e celulares na mão e não precisar fazer o mesmo, por estar satisfeito consigo. Ou pegar o celular e usá-lo para se divertir, se informar ou se comunicar, e seguir com a sua vida. Afinal, a vida no final das contas acontece principalmente offline.

Mau Humor

“Eu descobri que são as coisas pequenas, os feitos diários das pessoas comuns, os simples atos de bondade e amor, que mantêm o mal afastado.” Gandalf, para Galadriel
O Hobbit – J.R.R. Tolkien

Por vezes me deparo com os sorrisos falsos, com os tapinhas nas costas, e com elogios fétidos, infectos. Por muitas vezes vejo nos olhares, disfarçados de admiração, um quê de desprezo e inveja (que não imagino do que seria) tão temida pelos supersticiosos. Por vezes a humanidade me faz querer ser um inseto, alheio a toda essa manipulação do poder e do controle.

Mas no fim do dia, todas essas coisas se desfazem como o dente de leão ao vento. Esquecidas como os mortos que um dia dissemos amar, sem honestidade. No fim do dia é com minhas escolhas que durmo, e com quem escolhi dormir.

Sempre sonhei com um sorriso largo pela manhã, e com um carinho afetuoso a cada momento, como uma comédia romântica de Hollywood. E posso dizer que tive esses momentos, em troca de uma submissão manipulada e com aparência de liberdade. O preço a se pagar por um sonho que só alimentaria meu egocentrismo, foi alto demais. Quase o preço de minha vida, se não tivesse acordado antes. Quase o preço de minha sanidade.

Quero um rosto carrancudo honesto. Quero o mau humor da manhã e a fragilidade da raiva descontrolada. Quero me sentir amado porque eu me amei e soube me dar valor. E ao lado, outro ser humano de verdade, tão falho quanto eu, mas que topa qualquer parada. Não o rosto suave de quem tem o frescor da água fria no rosto que acordou tarde. Mas o suor e a vermelhidão mal-humorada de quem luta ao meu lado pelo bem-estar de ambos. Quero, na verdade, o que encontrei e demorei para perceber que me faz bem. Quero o que recebi, mais que palavras, mas atos reais e honestos de quem já estava também cansado de tanta loucura disfarçada de normalidade.

Aos gritos se manda o engano embora. Aos gritos se mostra o que está escondido. Aos gritos se ressuscita os mortos e se desperta os vivos. E enfim, estou vivo. Finalmente, como há muito já não me sabia. E assim aprendi a suprir minha própria carência, e a amar a mim mesmo. Pois só assim fui capaz de amar novamente.

Simples

Não funcionaram para mim discursos libertários que relativizaram a moral ou a ética. Nem tampouco a opressão de líderes religiosos que tentaram me manter na coleira por buscar sua aprovação paterna.

Não funcionou para mim a busca do amor romântico como única fonte de felicidade. Nem tampouco o ensimesmamento que aponta para a independência como desculpa para o isolamento.

O que me liberta é buscar em mim as respostas para minhas próprias perguntas, tendo como guias as pessoas ao meu redor: umas me mostrando fragmentos de mim mesmo, outras escancarando caminhos e valores dos quais não compartilho. E o amor? Esse me ensina a satisfação em estar ao lado e compartilhar uma vida. Ensina que ao doar, recebo, nem sempre da pessoa para quem doei. Mas muitas vezes de uma plenitude que brota da própria doação.

Simples. Simples até demais. Talvez por isso tenha demorado a cogitar esse modo de vida como algo a ser considerado.

Apologia ao presente

Fundo fotografia desenhado por Freepik

Nos dias de calor ardo em anseios dissociantes
Por algo que não se desenha mais no horizonte crepuscular
A gigantesca frustração de tamanha expectativa
De uma mente doente, irrealmente imaginativa e vã
Mas tão necessitada de tudo o que almeja sem poder

Nos dias de frio me encolho para um estado de prazerosa doença 
Sob um cobertor que me protege sem que haja essa necessidade
Vitimismo persistente que insiste em me transformar em mórbido deficiente
Para todos os efeitos ou para efeito de causa e efeito
De todas as batalhas ganhas ou perdidas, não importa

Nas noites insones ou nas quais acordo de propósito, choro desconsolado
Mesmo que sem motivo, só para não perder o costume de lamentar
Talvez eu só queira expurgar algo que o subconsciente ainda não cuspiu
Viciado em emoção, maldito pateta, malditas escolhas, maldita insanidade
Bendito é o fruto de todo esse sofrimento auto-infligido sem limites

Mas nas manhãs, todas elas sem exceção, e com uma profunda inspiração
O choro, o frio e o calor me abandonam por um momento de sanidade
E me lembro que há um poder maior do que toda essa doença
E irmãos a quem recorrer se a carga for pesada demais
Indo e voltando mas não desistindo seguimos lado a lado

Quem poderia nos compreender além de nós mesmos?
Por que saberíamos algo além de tudo o que já vivemos?
Quem poderia nos desamparar se somos muitos e estamos juntos?
O crepúsculo chegará para nós, mas nunca nos surpreenderá solitários
Pois somos um e vivemos só um dia, a despeito do ressentimento e medo

E os dias continuam a ser bons ou ruins, muito bons ou muito ruins
Fora do controle tento aceitar o que me é trazido de bom grado
Pois vai passar, seja alegria ou tristeza, angústia ou euforia
Pois o passado e o futuro não são coisas reais para os olhos postos no agora
Repousam nas mãos de quem é maior do que eu e detém a supremacia

Espera

“O amor é o abandono da lógica. O abandono voluntário dos padrões racionais. Nós cedemos a ele ou o combatemos. Mas não há meio termo.” Steve – A Maldição da Residência Hill

Espero como um sapo nas bordas do pântano que a serpente passe
Como alguém que não aprendeu a lidar com a ameaça iminente
Espero pelo amor para que aconteça, sem tirar os olhos do mal
Espero pelo amor e ele me espera pacientemente e me chamando
Ao meu lado tentando me fazer enxergar que o mal está lá fora

Ao postar meus olhos no mal que me ameaça sem me ver aqui
Me transformo no que vejo, aquilo que focalizo com atenção
Então o mal que habita em mim toma seu espaço em minha alma
Pois o acaricio e alimento pelo medo constantemente relembrado
E então me torno o próprio mal, o monstro que mata o médico

Espero pelo amor e ele espera que eu desperte do meu pesadelo
Mas então pensei no amor, e ele não era suficiente para mim
Pensei em todas as coisas boas e elas tinham justificativas
Racionalizei tudo o que fosse afeto ou falta dele, e então me irei
Me pus a fazer em pedaços o que nem sabia estar ao meu lado

Espero pelo amor e ele espera por mim mas agora o que faço?
Esfaqueio violentamente aquilo que me era precioso sem saber
Que o que era precioso foi distorcido pela razão como abuso
Me sei agora mais forte, mais capaz e mais cheio de razão
Mas ainda espero pelo amor por mim ferido de morte

Esperava eu pelo amor, mas agora o reconheço claramente
E o que me faltava era apenas acolhê-lo sem julgamentos
Recebi o meu amor em meus braços e fui tratar de suas feridas
Por mim provocadas mas ainda aberto à cura da entrega irrestrita
Espero pelo amor para que se cure e torne-se vivo e belo

Hoje abro meus olhos para tudo o que seja diverso de mim
Pois não posso esperar pelo amor olhando para o meu medo
E já não espero, pois ele se manifestou em toda sua glória
Apenas me rendo e aceito o que só pode ser novo e bom
Espero por sabedoria para cultivá-lo com gentileza

Vilões x Heróis

Com a morte recente de Stan Lee, o criador de muitos personagens e presidente da Marvel, pensei em contar aqui um pouco do que aprendi com sua obra e de outros cartunistas.

Sempre gostei de histórias de super-heróis. DC, Marvel, quadrinhos da Disney, todos sempre povoaram a minha imaginação. Há uma necessidade enorme em cada um de nós de saber que há alguém mais forte, que pode nos proteger. Pode ser também que queiramos ser heróis, ou mesmo vilões. Não é a toa que os filmes lançados nos últimos 20 anos dos grandes estúdios fizeram tanto sucesso. Aquilo não é totalmente ficção.

Quando penso nisso, me ocorre uma questão: qual é a diferença entre um herói e um vilão? O que define um ou outro? Ambos têm habilidades ou inteligência para fazer coisas extraordinárias. Alguns até foram amigos no passado. Ambos passaram por situações horrivelmente traumáticas. O que os diferencia tanto?

Um vilão responde de maneira diferente de um herói aos estímulos. O Duende Verde perdeu o pai tragicamente, assim como o Homem Aranha perdeu o tio. Mas o Duende Verde culpa o Homem Aranha pela morte do pai, enquanto o Homem Aranha se culpa mas resolve não deixar mais aquilo acontecer. Batman viu os pais serem assassinados e se tornou alguém sombrio, mas aprendeu a usar sua escuridão para combater o crime. O Coringa enlouquece por perder a mulher e o filho no parto e depois ser totalmente desfigurado em um acidente. Acaba se tornando talvez o maior psicopata das histórias em quadrinhos. Super Homem perde todo seu povo, cultura e planeta (pior: nem os conheceu) mas decide abraçar e proteger o planeta que o acolhe. Lex Luthor não se conforma por sua fortuna não poder lhe dar os poderes do Super Homem e se propõe a combatê-lo.

Pra mim é muito clara a diferença entre uns e outros: ganhar ou perder a luta contra si mesmo. E a dor é um fator determinante nisso, pois é o gatilho das coisas mais profundas que existem em cada um. Os vilões são aqueles que enxergaram que a vida foi dura demais com eles, e eles precisariam dar o troco. Dar, até a quem não tem nada a ver com a história, a retribuição por tudo o que sofreram. Os heróis pegaram essa dor, entenderam tudo o que os cercava, trabalharam e devolveram ao mundo a justiça, em contrapartida à injustiça que sofreram.

Em meu processo de crescimento pessoal, em vários momentos tive que encarar uma escolha parecida. A vida acontece conosco, e estejamos preparados ou não, tragédias acontecem. Podemos adoecer e perder tudo, nos sujeitamos a pessoas manipuladoras e cruéis, perdemos entes queridos e tantas outras situações que parecem mais do que podemos suportar. Cada um sabe onde o calo aperta, cada um com seu fundo de poço, e é muito grande a tentação de nos tornarmos vítimas.

Fiz muito esse papel. A vítima é apenas uma vítima, ela não pode fazer nada. Ou pode retribuir na mesma moeda, passar para a frente os “favores” que recebeu. A vítima começa a fazer mais vítimas, e assim se torna um “vilão”. O caminho mais longo e mais trabalhoso, é o de entender que coisas ruins acontecem, e não há culpados (OK, algumas vezes há), mas não se anda para a frente focando nisso. É aí que se descobre que aquilo que dói tanto é uma fraqueza, que deve ser reconhecida, e a situação superada por meio de aceitação e muitas vezes perdão (a si mesmo ou ao outro). Não para ser bonzinho, mas por necessidade, por não querer que doa mais. Por querer ter uma vida plena. Então você trabalha duro naquela situação e ganha resiliência. Ganha força para seguir. Descobre muitas coisas sobre si mesmo. Assim nasce um “herói”.

Agora vamos admitir: tem muita gente com a cabeça “sambada” por aí. Talvez tenhamos um excesso de “vilões”, e muita gente magoando os outros, prejudicando, roubando, matando, fazendo coisas que não têm uma gota de empatia. E nossa tendência é nos revoltarmos, e de fato é revoltante. Mas vilões são sempre vítimas que não conseguem sair dessa posição, e com isso fazem mais vítimas, e tudo se torna uma bola de neve. E temos a impressão de que o mundo se torna cada vez mais um lugar pior, porque o mais fácil é ceder ao mal, seguir o caminho que a dor e o egoísmo nos mostram. Ser sua melhor versão dá trabalho, e machuca talvez ainda mais do que você já está machucado antes de melhorar.

Esse não é um texto de auto-ajuda: é a exposição do que eu vivo. Fui um vilão por muito tempo, e para reverter o processo foi doloroso, dói até hoje. Tem muito aqui ainda a ser trabalhado. Mas quando o Super Homem, o Homem Aranha e o Batman me ensinam a retidão e a vontade de ajudar os outros mesmo que minha vontade seja contrária, eu sei que começarei meu dia engolindo meus moderadores de humor e com uma angústia monstruosa no peito, mas terminarei com a cabeça no travesseiro e a consciência leve. Pois o Duende-verde, o Coringa e Lex Luthor podem ser mais ricos, interessantes e descolados, mas depois de fazerem milhares de vítimas, eles acabam no lugar de onde partiram: um lugar de dor e insatisfação.

Créditos da Imagem: DC Comics e Warner Bros. Entertainment