Cúmplice

E se eu jogasse o meu cansaço sobre você
E todas as tentativas frustradas de superar alguma coisa já arraigada aqui
E se eu jogasse todo o meu cansaço sobre esse corpo subjugado
E todas as mentiras nas quais alguém um dia acreditou?

O medo cresceria em progressão geométrica
Ao me deitar e fitar a escuridão no lugar do teto
E a pressão, velha conhecida do coração reduzido a uma bomba velha
Aumentaria enquanto rumino toda essa informação inútil?

E se eu dissesse que já não sei mais o que quero
Pois aprendi a não querer para não destruir a sala, o quarto, a mente
E se eu fizesse tudo o que quero dentro de uma bolha a prova de som?
E se enfim a realidade caísse como um piano sobre nossas cabeças?

Confiança, a carta de crédito entregue sem garantias
Confiança cega, que não é vã porque sozinha se paga
Olho ao redor sabendo que não é real
Mas o que seria?

Adoeci terrivelmente de uma chaga mortal
Capaz de levar embora até quem em mim confia
Escolhi estar ao lado de quem talvez pudesse
Acreditar que havia esperança ainda que tardia

E de olhos fechados e ouvidos tapados
Caminho por uma estrada desconhecida
E já não me pergunto o que haverá adiante
Pois já não importa o amanhã, desde que o hoje tenha valido a pena

Fui tomado de amor para todo o sempre
Aquele que não dói, ao contrário do habitual
Me sei hoje mais sábio por ser um tolo
E o mundo repentinamente se abriu para mim

Porque nos damos as mãos sem nos tocarmos
E transformamos a rotina numa coisa extraordinária
Porque o resto do mundo não saberia sobreviver a um terço
Do que enfrentamos todos os dias em nós mesmos e nessa cidade

Abra os olhos, porque os sonhos são piores que o mundo
E fique em segurança em nossa cama que perfumamos de suor
Os pesadelos ainda se tornarão realidade por toda a vida
Mas a alma a seu lado jamais desertará enquanto lhe pertencer

Filosofia de botequim (sem álcool)

Sinto, logo existo
Sinto?
Cinto?
Sem ti não sinto
Mas existo
Essa existência fraca e apagada
Inútil
Morta

Esse poema foi escrito em 1999, ao lado do D.A. da Biologia da UFMG, sem álcool ou canabinóides na cabeça, o que era raro naquela época, após um merecido pé na bunda. É um dos meus primeiros, e talvez o que mais tenho carinho por ele.

Latinha de cerveja, camisinha usada e cocô de cachorro

“As drogas me deram asas para voar, depois me tiraram o céu.”
Jonh Lennon

Sábado passado fui passear com meu cachorro pelo bairro, e acabei me esquecendo do saquinho para colocar o cocô. Como todas as vezes em que isso acontece, fico procurando nas lixeiras dos meus vizinhos um saquinho que eu possa usar. Sábado de manhã é dia do caminhão da SLU passar, e sempre acaba tendo algum saquinho que me salve de subir de volta pra casa.

Fui salvo então por um saquinho com um latão de cerveja vazio da Skol. Satisfeito, segui meu caminho, até que Otto (meu cachorro mais bonzinho do mundo) agachou para fazer cocô bem ao lado de uma camisinha usada, bem cheia e devidamente amarrada. A rua onde estávamos é bem erma, um de seus lados é um lote vago transformado em parque (Parque Sol Fernão Dias) que cai em um barranco vertiginoso que dá vista para a zona Norte da cidade, e à noite os casaizinhos fazem a festa em carros de vidros embaçados, ao som de pancadas nos vidros. A camisinha do cidadão me mostrava que ele foi muito feliz na noite anterior.

Ato contínuo, coloquei minha mão dentro do saquinho e catei o cocô do Otto, junto com a camisinha e embalei também o latão de Skol, detentor original do invólucro. Foi tão automático, tão sem questionamento naquele momento e tão correto no meu ponto de vista, que quando penso nisso agora, chego a me chocar. O que é que eu tinha a ver com a camisinha do ilustre desconhecido? Por que fazer tanta questão de retirá-la da via pública? E que trio mais estranho aquele que acabei descartando na lata de lixo da rua de cima! Já achei um mico no lixo, mas aquilo levou a esquisitice a um patamar inteiramente novo.

É claro que se fomos observar a combinação de coisas que podem estar em um mesmo saco de lixo, vamos ver algo bizarro sempre. Mas aquilo foi exclusivo e quase intencional. E agora rio do fato que eu realmente precisei catar aquela camisinha e juntar aos outros dois elementos, pois tenho uma necessidade de organização que chega a ser doentia. Aquela camisinha não poderia ficar jogada na rua. Deveria ser devidamente descartada de maneira civilizada, como um bom menino faz. Esse bom menino que sai para passear com o cachorro e cata o cocô, que levanta de manhã para cuidar das coisas da casa, o bom menino que não pode ver algo errado que quer resolver.

O bom menino nem sempre foi bom. Ou melhor, por dentro ele foi. Mas seus vícios não o deixavam mostrar isso. Tudo estava em desordem por muito tempo. A simples idéia de um sonho suburbano, com rotina de passeio com o cachorro, marido, filha, mãe, gatos, prestação do carro, contas a pagar e tudo o mais, me dava arrepios! O negócio era viver à noite, encher a cara, ficar chapado e trabalhar com o que gostava. A idéia de amor sempre foi algo intangível, mais associado à idéia de uma pessoa do que com o contexto completo. Talvez um amor de Romeu e Julieta, para declamar poemas e depois cometer suicídio. Só que o suicídio era diário.

Latinha de cerveja, símbolo de meu alcoolismo e dependência química, usando quantidades cada vez maiores de substâncias alteradoras da mente, cada vez com maior frequência. Camisinha, representando a compulsão sexual e o desejo desenfreado, cada vez com mais pessoas em menos tempo, sem limites ou critérios. Cocô de cachorro, onde naturalmente eu poderia amanhecer com a cara enfiada, pois não havia mais noção de onde poderia estar indo e não havia nada que fosse proibido, afinal, quem eram os caretas para me colocar limites? Eu era dono do meu nariz , e ele acabava enfiado na merda. Três símbolos, embalados e devidamente depositados no lixo. E viva o subconsciente!

Liberdade não é fazer o que se quer, a hora que se quer, do jeito que se quer. Liberdade é fazer coisas que não lhe tornem prisioneiro. Eu era prisioneiro do que eu chamava de liberdade. Hoje percebo que escolhi a vida na ruazinha arborizada, passeando com o cachorro, me preocupando com as necessidades de minha mãe, filha e marido, e ela é simplesmente deliciosa. Acordar às cinco da manhã para botar ração para os bichos e me vestir para ir ao hospital trabalhar com o que gosto. Depois encontrar com meus amigos do grupo de mútua ajuda que sabem o que é ser como eu e compartilhar, ajudar e ser ajudado. E à noite, dormir. Antes, dormir era chato. Hoje é um merecido prêmio.

O desejo desenfreado a ser satisfeito não compensa, nem nunca é realmente satisfeito, porque seu preço é alto demais. A cerveja pela manhã já está azeda, o esperma ficou líquido e frio e a pessoa ao lado é uma estranha. As drogas se acabaram e o dinheiro também, e você se vê onde não queria estar: no meio dos excrementos. Porque liberdade tem cheiro de sabonete e café passado agorinha pela manhã, e alho refogado com perfume de marido à noite. Aquele, com os cabelos embranquecendo e mau-humor matinal, reclamando do seu ronco, mas que conhece até o seu olhar mais discreto e topa qualquer parada para te ver bem. A casa que dá trabalho, com os gatos soltando pelos no sofá e os vizinhos barulhentos, mas onde você chega e respira fundo: cheguei!

Latinha de cerveja, camisinha usada e cocô de cachorro. Prefiro uma caneca de café novinho, cueca de algodão e o cocô do cachorro mesmo. Porque o cocô agora está em seu devido lugar, e hoje eu tenho o carinho do cachorro. Porque ficar chapado é bom demais, mas ser eu mesmo é melhor ainda. E porque o subúrbio, meus amigos, é infinitamente mais feliz do que a boate.

Mau Humor

“Eu descobri que são as coisas pequenas, os feitos diários das pessoas comuns, os simples atos de bondade e amor, que mantêm o mal afastado.” Gandalf, para Galadriel
O Hobbit – J.R.R. Tolkien

Por vezes me deparo com os sorrisos falsos, com os tapinhas nas costas, e com elogios fétidos, infectos. Por muitas vezes vejo nos olhares, disfarçados de admiração, um quê de desprezo e inveja (que não imagino do que seria) tão temida pelos supersticiosos. Por vezes a humanidade me faz querer ser um inseto, alheio a toda essa manipulação do poder e do controle.

Mas no fim do dia, todas essas coisas se desfazem como o dente de leão ao vento. Esquecidas como os mortos que um dia dissemos amar, sem honestidade. No fim do dia é com minhas escolhas que durmo, e com quem escolhi dormir.

Sempre sonhei com um sorriso largo pela manhã, e com um carinho afetuoso a cada momento, como uma comédia romântica de Hollywood. E posso dizer que tive esses momentos, em troca de uma submissão manipulada e com aparência de liberdade. O preço a se pagar por um sonho que só alimentaria meu egocentrismo, foi alto demais. Quase o preço de minha vida, se não tivesse acordado antes. Quase o preço de minha sanidade.

Quero um rosto carrancudo honesto. Quero o mau humor da manhã e a fragilidade da raiva descontrolada. Quero me sentir amado porque eu me amei e soube me dar valor. E ao lado, outro ser humano de verdade, tão falho quanto eu, mas que topa qualquer parada. Não o rosto suave de quem tem o frescor da água fria no rosto que acordou tarde. Mas o suor e a vermelhidão mal-humorada de quem luta ao meu lado pelo bem-estar de ambos. Quero, na verdade, o que encontrei e demorei para perceber que me faz bem. Quero o que recebi, mais que palavras, mas atos reais e honestos de quem já estava também cansado de tanta loucura disfarçada de normalidade.

Aos gritos se manda o engano embora. Aos gritos se mostra o que está escondido. Aos gritos se ressuscita os mortos e se desperta os vivos. E enfim, estou vivo. Finalmente, como há muito já não me sabia. E assim aprendi a suprir minha própria carência, e a amar a mim mesmo. Pois só assim fui capaz de amar novamente.

Aborto

“Amadurecer, morrer; é quase a mesma palavra.”. Victor Hugo

Até breve!

O amanhã já vem, tedioso como sempre. Me debruço em lágrimas sobre essas lamúrias penosas, advindas dos sonhos despedaçados de glória e euforia, que já não acendem meu peito. Já não ascendem aos olhos.

Me contorço em meio ao sangue que verto por não estar mais iludido. Perdido, sem poder estancar toda essa vida que já se esvaiu em tentativas inúteis de ser ainda um menino. Mas tudo era tão bom, afinal. Tudo era perfeito nesses sonhos de amor idealizado, à medida em que se poderia manipular a realidade com uma boa dose de leviandade e sonhos impalpáveis.

Tudo era perfeito ao ponto de ser esfaqueado e não sentir. Olhar para uma pilha de cadáveres decompostos e enxergar um jardim. Sentir falta da dor lancinante que parecia ser o prazer mais orgástico, indispensável. Cansado, sem me cansar de morrer, sentindo que a vida era plena e tudo era belo em meio a uma paisagem desolada.

Até breve!

Me lembro dos seus altos e orgulhosos brados, moleque arrogante e orgulhoso. Você sempre soube tudo! Sempre soube como espalhar sua ignorância aos quatro fétidos ventos. Me lembro de sua sabedoria auto imputada, clássica crença da ignorância dos tolos. Ouvirei talvez os brados ao longe, antes que o esquecimento dê cabo de sua vida inútil.

Até breve!

Mas isso é uma mentira, não é mesmo? Não existe desejo de brevidade. Existe um adeus sem o menor sentimento. Essa parte abortada de mim deve morrer de inanição, pois encanta com palavras e voz macia. Promete a fortuna e a felicidade. Sonha tão irresponsavelmente que se joga de um precipício esperando voar.

Para onde?

Para onde nunca estive. Onde a vida é dura e injusta, e se aprende a cada dia. Para a terra dos viventes, sem pedir desculpas por fracassar em ser excepcional. Para a terra dos seres humanos. Ali a sabedoria pode ser encontrada e tomada a conta-gotas. Fora da terra prometida não serei mais enganado por promessas. Nem mesmo as minhas.

Simples

Não funcionaram para mim discursos libertários que relativizaram a moral ou a ética. Nem tampouco a opressão de líderes religiosos que tentaram me manter na coleira por buscar sua aprovação paterna.

Não funcionou para mim a busca do amor romântico como única fonte de felicidade. Nem tampouco o ensimesmamento que aponta para a independência como desculpa para o isolamento.

O que me liberta é buscar em mim as respostas para minhas próprias perguntas, tendo como guias as pessoas ao meu redor: umas me mostrando fragmentos de mim mesmo, outras escancarando caminhos e valores dos quais não compartilho. E o amor? Esse me ensina a satisfação em estar ao lado e compartilhar uma vida. Ensina que ao doar, recebo, nem sempre da pessoa para quem doei. Mas muitas vezes de uma plenitude que brota da própria doação.

Simples. Simples até demais. Talvez por isso tenha demorado a cogitar esse modo de vida como algo a ser considerado.

Espera

“O amor é o abandono da lógica. O abandono voluntário dos padrões racionais. Nós cedemos a ele ou o combatemos. Mas não há meio termo.” Steve – A Maldição da Residência Hill

Espero como um sapo nas bordas do pântano que a serpente passe
Como alguém que não aprendeu a lidar com a ameaça iminente
Espero pelo amor para que aconteça, sem tirar os olhos do mal
Espero pelo amor e ele me espera pacientemente e me chamando
Ao meu lado tentando me fazer enxergar que o mal está lá fora

Ao postar meus olhos no mal que me ameaça sem me ver aqui
Me transformo no que vejo, aquilo que focalizo com atenção
Então o mal que habita em mim toma seu espaço em minha alma
Pois o acaricio e alimento pelo medo constantemente relembrado
E então me torno o próprio mal, o monstro que mata o médico

Espero pelo amor e ele espera que eu desperte do meu pesadelo
Mas então pensei no amor, e ele não era suficiente para mim
Pensei em todas as coisas boas e elas tinham justificativas
Racionalizei tudo o que fosse afeto ou falta dele, e então me irei
Me pus a fazer em pedaços o que nem sabia estar ao meu lado

Espero pelo amor e ele espera por mim mas agora o que faço?
Esfaqueio violentamente aquilo que me era precioso sem saber
Que o que era precioso foi distorcido pela razão como abuso
Me sei agora mais forte, mais capaz e mais cheio de razão
Mas ainda espero pelo amor por mim ferido de morte

Esperava eu pelo amor, mas agora o reconheço claramente
E o que me faltava era apenas acolhê-lo sem julgamentos
Recebi o meu amor em meus braços e fui tratar de suas feridas
Por mim provocadas mas ainda aberto à cura da entrega irrestrita
Espero pelo amor para que se cure e torne-se vivo e belo

Hoje abro meus olhos para tudo o que seja diverso de mim
Pois não posso esperar pelo amor olhando para o meu medo
E já não espero, pois ele se manifestou em toda sua glória
Apenas me rendo e aceito o que só pode ser novo e bom
Espero por sabedoria para cultivá-lo com gentileza

Vítima

“We never talked about it
But I hear the blame was mine
I’d call you up to say I’m sorry
But I wouldn’t want to waste your time”
Phil Collins – Do you Remember

Olhe para mim agora
As lágrimas que derramei
O sangue bombeado fortemente
Para um cérebro cheio de dor
Compareça-se de mim
Como o Cristo faria
Veja tudo o que causou
A um poeta tão sofredor

E com o rosto entre as mãos
Então eu finalmente saberei
Com sua ausência opressiva
De toda a verdade inegável
Meus medos se tornaram realidade
Porque fui eu quem os trouxe à luz
Cada guerra que você lutou aqui
Fui eu, e eu somente quem declarou

Olhos abertos, rosto fora das mãos
Me levanto, dor ainda no peito
Chuto para o canto cachorro morto
O sofredor foi quem causou a dor
A vítima se vitimizou indubitavelmente
Em busca de controle absoluto
Tudo o que temia, fingido poeta
Você mesmo trouxe à existência

Cresça, infantil poeta, a apareça
Mais ciente de sua responsabilidade
Saiba que tudo o que lhe retorna
Foi provocado em algum momento
Ao tentar controlar as variáveis
Tudo lhe fugiu às mãos calejadas
E agora você tenta ser a vítima
No intuito de controlar pelo lamento

Lamenta então, sua própria inabilidade
Vá de encontro ao que você desfez
Entenda de uma vez por todas o seu erro
E a liberdade que o outro tem
Respeita todas as suas limitações
E as limitações daquele a que você impõe
Sua personalidade indomável até que
Você aprenda a ser um dentre dois seres

Moeda barata

“Do I have to change my name? Will it get me far? Should I lose some weight? Am I gonna be a star?” Madonna – American Life

Ao chegar em casa
Cansado da labuta diária
Pego meu controle remoto
Assisto às séries que amo
Ninguém é testemunha dos meus movimentos
Mas todos são testemunhas da minha vida

Tenho 824 amigos no Facebook
974 seguidores no Instagram
Participo de 10 grupos no Whatsapp
Cada um com mais de 40 membros
Muitos curtem minhas fotos
Muitos reagem aos meus posts
Muitos mandam bom dia
Ninguém sabe o que se passa comigo

Acredito que é o melhor
Ser conhecido por muitos
Desconhecido na realidade
Ontem passei mal em minha casa
Mas não postei nas redes
Pois todos têm uma vida incrível
Eu também preciso ter

Mas que tipo de vida eu tenho?
Não viajo todos os anos para o exterior
Malho mas não tomo o Whey mais caro
Não tenho namorada com corpo de modelo
Nunca consultei um coach para ser mais articulado
Todo mundo está vivendo mais do que eu
Então tiro fotos da minha varanda
E espero que gostem da minha roupa nova no espelho

E aquela menina da minha academia?
Olharia para mim?
Não tenho um carro do ano
Igual ao que o meu amigo postou ontem
Não tenho amigos que vêm à minha casa
Eles só me encontram no bar
E daí vêm as minhas melhores fotos

Um dia
Tirarei minha própria vida
Pois não faz sentido
Almejar o que eles têm
E não ter nada
E não ter como ter tudo
Talvez hoje

Enquanto isso as lágrimas rolavam, e no sabor salgado das mesmas, ele se dava conta de que as lágrimas não eram o sal: as lágrimas eram alguma coisa que não se resumia ao sal. Abriu os olhos, e viu a lua. Ele percebeu que a lua não era sua luz, mas uma coisa muito maior, que refletia a luz de outra coisa. E se deu conta do engano em que havia acreditado. Ter é diferente de ser. Então adormeceu.

Hoje saí na rua
E notei como é bonita a moça da padaria
Como é forte o meu vizinho
O quanto os cachorros da casa em frente
São cheios de vida
E percebi que tem crianças na vizinhança

Hoje notei
Que sou bom de papo
O rapaz do sacolão gostou
Aquela senhora que varre a calçada
Me achou simpático
Hoje notei
Que sou mais do que mostro
Mais do que escondo
Hoje notei
Que tenho mais a oferecer
Do que meus posts nas redes
Hoje eu reparei em mim
E gostei do que vi

Saio de casa
Há um trabalho a ser feito
Ando com a cabeça erguida
Pois o celular está no bolso
E a mente está no mundo
Será que hoje vou conhecer alguém especial
De carne e osso?
Uma moça, um amigo
Será que eles vão perceber?

Sou aquele que renasceu
Sou alguém que sempre teve muito a oferecer
Mas não acreditava nisso
Pois o que tenho não é igual ao resto do mercado
Quem sou não se enquadra
No que todo mundo demanda
Mas por que me preocupar?
Meu produto
Não se compra com a moeda barata
De uma vida de aparências

Crise

Uma luz quente e viva
Queimando como lava incandescente
Perpassa meu cérebro inquieto
Rasgando todas as conexões neurais
Atabalhoado tento me agarrar
A alguma sanidade ou estável insanidade
Tentando não me afogar nas infinitas possibilidades

Então uma garra metálica a espremer o coração
Que pula de desejo e desespero para o abismo
Tentando encontrar uma saída possível
Falhando em buscar alguma forma de liberdade
Nesse labirinto de sensações e impressões
Encontro a mais terrível e doce morte
Sangrenta mas asséptica
Obscurecido pela luz absurda

Um grito silencioso de socorro escapa dos lábios da alma
Sabendo que todo o universo pode escutar
Mas não dá ouvidos
O choro preso na garganta sufoca todo o amor que existe
Ao entrar trôpego na penumbra segura
Cigarros de menta e cereja dariam algum sabor
O álcool traria algum alívio
Mas tal qual um acidente de carro
É preciso tempo e cuidado
É preciso estar olhando para fora
Quando o caos se instala por dentro

Então tudo começa a desaparecer
Como uma anestesia aplicada
A sensação de irrealidade toma conta
E de repente é possível ser feliz de novo
Foi o corpo que se cansou?
As feridas já cicatrizaram como as de um vampiro?
Mas isso na verdade não importa
O mundo voltou a ter cor
E a luz já não machuca mais

* Oringinalmente publicado no Facebook há pouco mais de um ano.