Para calar o silêncio

Quando ousei dizer o que gritava em silêncio
O medo e o tempo e tantos outros agentes da paralisia
Pressionavam para que eu não parisse
Esse horrendo feto deformado e insuspeito

Noites e dias de insônia e pânico
O horror da inércia rastejante vestida de costume
Meu tenebroso fantasma a rondar
E as circunstâncias a sussurrar: Para todo o sempre!

Os santos se calaram de indignada estupefação
Os demônios se calaram por tédio sem fim
Os homens comuns nem deram confiança
E o resto do universo se moveu quase imperceptivelmente

Pois que os santos sejam empalados violentamente
E os demônios fujam aos berros em línguas de fogo
E os homens e o universo se fodam
Junto com fantasmas e fetos deformados e toda essa nojeira

Pois meu grito será impossível de ser esquecido

E machucará os ouvidos de muitos
E trará sobre mim a fúria dos conformistas
E será angustiante e longo e muito alto
Porquanto não mais sofrerei calado em minha solidão superlotada

Pois a verdade é uma coisa estranha
Muitos dizem que a desejam, mas na verdade a temem
E se você a alcançou, não tente aprisioná-la
Pois será como um gato enfurecido encurralado dentro do peito

Quando ousei dizer o que gritava em silêncio
A paralisia se foi com o medo e o tempo voltou a passar
E a feia e deformada verdade se dissolveu em remédio para a alma
E toda a dor desse momento redundou em paz depois do choque

Não há mais santos, demônios, homens ou o universo
Apenas a minha realidade, sem julgamentos, angústia ou gritos abafados
Pois omissões e segredos não sobrevivem na luz
E não mais alimentarão os monstros que um dia ali habitaram

Pois ao abrir da boca os sussurros doentios se calaram para sempre

Do lado de cá

A grama do lado de cá é mais verde. Depois de tudo, depois da escuridão da noite sem fim, da miséria e da doença, ao abrir os olhos com o esforço de quem teve as pálpebras coladas, fomos capazes de apreciar a vida com toda essa explosão de cores.

A miséria e a doença continuam muito, muito perto. Mas hoje olhamos para fora, e para fora iremos sem parar mais por motivo algum. Já nos ofereceram o lado luminoso da estrada, mas era só mais uma prisão.

O lado luminoso da estrada é você, e só você que encontra. Pois só você pode enxergar a luz.

Fotos: Daniel Bücker. Hospital das Clínicas da UFMG e Praça da Liberdade.

Latinha de cerveja, camisinha usada e cocô de cachorro

“As drogas me deram asas para voar, depois me tiraram o céu.”
Jonh Lennon

Sábado passado fui passear com meu cachorro pelo bairro, e acabei me esquecendo do saquinho para colocar o cocô. Como todas as vezes em que isso acontece, fico procurando nas lixeiras dos meus vizinhos um saquinho que eu possa usar. Sábado de manhã é dia do caminhão da SLU passar, e sempre acaba tendo algum saquinho que me salve de subir de volta pra casa.

Fui salvo então por um saquinho com um latão de cerveja vazio da Skol. Satisfeito, segui meu caminho, até que Otto (meu cachorro mais bonzinho do mundo) agachou para fazer cocô bem ao lado de uma camisinha usada, bem cheia e devidamente amarrada. A rua onde estávamos é bem erma, um de seus lados é um lote vago transformado em parque (Parque Sol Fernão Dias) que cai em um barranco vertiginoso que dá vista para a zona Norte da cidade, e à noite os casaizinhos fazem a festa em carros de vidros embaçados, ao som de pancadas nos vidros. A camisinha do cidadão me mostrava que ele foi muito feliz na noite anterior.

Ato contínuo, coloquei minha mão dentro do saquinho e catei o cocô do Otto, junto com a camisinha e embalei também o latão de Skol, detentor original do invólucro. Foi tão automático, tão sem questionamento naquele momento e tão correto no meu ponto de vista, que quando penso nisso agora, chego a me chocar. O que é que eu tinha a ver com a camisinha do ilustre desconhecido? Por que fazer tanta questão de retirá-la da via pública? E que trio mais estranho aquele que acabei descartando na lata de lixo da rua de cima! Já achei um mico no lixo, mas aquilo levou a esquisitice a um patamar inteiramente novo.

É claro que se fomos observar a combinação de coisas que podem estar em um mesmo saco de lixo, vamos ver algo bizarro sempre. Mas aquilo foi exclusivo e quase intencional. E agora rio do fato que eu realmente precisei catar aquela camisinha e juntar aos outros dois elementos, pois tenho uma necessidade de organização que chega a ser doentia. Aquela camisinha não poderia ficar jogada na rua. Deveria ser devidamente descartada de maneira civilizada, como um bom menino faz. Esse bom menino que sai para passear com o cachorro e cata o cocô, que levanta de manhã para cuidar das coisas da casa, o bom menino que não pode ver algo errado que quer resolver.

O bom menino nem sempre foi bom. Ou melhor, por dentro ele foi. Mas seus vícios não o deixavam mostrar isso. Tudo estava em desordem por muito tempo. A simples idéia de um sonho suburbano, com rotina de passeio com o cachorro, marido, filha, mãe, gatos, prestação do carro, contas a pagar e tudo o mais, me dava arrepios! O negócio era viver à noite, encher a cara, ficar chapado e trabalhar com o que gostava. A idéia de amor sempre foi algo intangível, mais associado à idéia de uma pessoa do que com o contexto completo. Talvez um amor de Romeu e Julieta, para declamar poemas e depois cometer suicídio. Só que o suicídio era diário.

Latinha de cerveja, símbolo de meu alcoolismo e dependência química, usando quantidades cada vez maiores de substâncias alteradoras da mente, cada vez com maior frequência. Camisinha, representando a compulsão sexual e o desejo desenfreado, cada vez com mais pessoas em menos tempo, sem limites ou critérios. Cocô de cachorro, onde naturalmente eu poderia amanhecer com a cara enfiada, pois não havia mais noção de onde poderia estar indo e não havia nada que fosse proibido, afinal, quem eram os caretas para me colocar limites? Eu era dono do meu nariz , e ele acabava enfiado na merda. Três símbolos, embalados e devidamente depositados no lixo. E viva o subconsciente!

Liberdade não é fazer o que se quer, a hora que se quer, do jeito que se quer. Liberdade é fazer coisas que não lhe tornem prisioneiro. Eu era prisioneiro do que eu chamava de liberdade. Hoje percebo que escolhi a vida na ruazinha arborizada, passeando com o cachorro, me preocupando com as necessidades de minha mãe, filha e marido, e ela é simplesmente deliciosa. Acordar às cinco da manhã para botar ração para os bichos e me vestir para ir ao hospital trabalhar com o que gosto. Depois encontrar com meus amigos do grupo de mútua ajuda que sabem o que é ser como eu e compartilhar, ajudar e ser ajudado. E à noite, dormir. Antes, dormir era chato. Hoje é um merecido prêmio.

O desejo desenfreado a ser satisfeito não compensa, nem nunca é realmente satisfeito, porque seu preço é alto demais. A cerveja pela manhã já está azeda, o esperma ficou líquido e frio e a pessoa ao lado é uma estranha. As drogas se acabaram e o dinheiro também, e você se vê onde não queria estar: no meio dos excrementos. Porque liberdade tem cheiro de sabonete e café passado agorinha pela manhã, e alho refogado com perfume de marido à noite. Aquele, com os cabelos embranquecendo e mau-humor matinal, reclamando do seu ronco, mas que conhece até o seu olhar mais discreto e topa qualquer parada para te ver bem. A casa que dá trabalho, com os gatos soltando pelos no sofá e os vizinhos barulhentos, mas onde você chega e respira fundo: cheguei!

Latinha de cerveja, camisinha usada e cocô de cachorro. Prefiro uma caneca de café novinho, cueca de algodão e o cocô do cachorro mesmo. Porque o cocô agora está em seu devido lugar, e hoje eu tenho o carinho do cachorro. Porque ficar chapado é bom demais, mas ser eu mesmo é melhor ainda. E porque o subúrbio, meus amigos, é infinitamente mais feliz do que a boate.

Alma (demônios)

“Power resides where men believe it resides. It’s a trick: a shadow on the wall.” Lord Varys (Game of Thrones season 02)

Onde estão os demônios que assolavam sua vida há umas boas décadas? Onde se escondem? Por onde rastejam com suas línguas bífidas, arranhando as pedras do chão com suas garras? Para onde direcionam seus gigantescos olhos amarelos ameaçadores? De qual medo agora se alimentam vorazmente com suas presas cravadas nas artérias? Quem os comanda às gargalhadas ao ver o sofrimento infindável?

Todas aquelas hordas de criaturas feitas de fragmentos da alma, a flutuar ao seu redor, incitando o ódio e o ressentimento, ao vibrar na sintonia da morte espiritual que parece não ter fim… todas as paranóias e desejos de sangue e carne… de onde vieram? Por que nunca vão embora? A loucura toca os sonhos em seu domínio, e nada mais faz sentido algum.

Um dia eles foram embora junto com sua crença de que você fazia parte de seus vícios. Um dia você decidiu que simplesmente olharia para o outro lado, e eles se transformaram em fumaça branca e fétida. Deixaram sua alma fragmentada para trás, e um bocado de trabalho a ser feito. Ainda doía. Ainda faltava muita coisa. Mas seus olhos fitavam o caminho à frente. Longo, penoso, mas certo.

Às vezes você pode sentir saudade de sua companhia, seus vícios, toda a horrível vida, mas que ao menos lhe era familiar. Às vezes você gostaria de invocá-los. Mas você sabe: eles só podem fazer o que você acredita que eles podem. Nem um dano a mais.

Aborto

“Amadurecer, morrer; é quase a mesma palavra.”. Victor Hugo

Até breve!

O amanhã já vem, tedioso como sempre. Me debruço em lágrimas sobre essas lamúrias penosas, advindas dos sonhos despedaçados de glória e euforia, que já não acendem meu peito. Já não ascendem aos olhos.

Me contorço em meio ao sangue que verto por não estar mais iludido. Perdido, sem poder estancar toda essa vida que já se esvaiu em tentativas inúteis de ser ainda um menino. Mas tudo era tão bom, afinal. Tudo era perfeito nesses sonhos de amor idealizado, à medida em que se poderia manipular a realidade com uma boa dose de leviandade e sonhos impalpáveis.

Tudo era perfeito ao ponto de ser esfaqueado e não sentir. Olhar para uma pilha de cadáveres decompostos e enxergar um jardim. Sentir falta da dor lancinante que parecia ser o prazer mais orgástico, indispensável. Cansado, sem me cansar de morrer, sentindo que a vida era plena e tudo era belo em meio a uma paisagem desolada.

Até breve!

Me lembro dos seus altos e orgulhosos brados, moleque arrogante e orgulhoso. Você sempre soube tudo! Sempre soube como espalhar sua ignorância aos quatro fétidos ventos. Me lembro de sua sabedoria auto imputada, clássica crença da ignorância dos tolos. Ouvirei talvez os brados ao longe, antes que o esquecimento dê cabo de sua vida inútil.

Até breve!

Mas isso é uma mentira, não é mesmo? Não existe desejo de brevidade. Existe um adeus sem o menor sentimento. Essa parte abortada de mim deve morrer de inanição, pois encanta com palavras e voz macia. Promete a fortuna e a felicidade. Sonha tão irresponsavelmente que se joga de um precipício esperando voar.

Para onde?

Para onde nunca estive. Onde a vida é dura e injusta, e se aprende a cada dia. Para a terra dos viventes, sem pedir desculpas por fracassar em ser excepcional. Para a terra dos seres humanos. Ali a sabedoria pode ser encontrada e tomada a conta-gotas. Fora da terra prometida não serei mais enganado por promessas. Nem mesmo as minhas.

Síndrome de Estocolmo

Um olhar penetrante nos olhos de seu captor
Belas recordações desperta da tenra infância
A violência de uma indução ao que era fora do tempo
A tranquilidade de uma tempestade solar

Em Estocolmo ou em Belo Horizonte
Traumas sindrômicos o mantém parado ali
Por uma tarde inteira
Por um ano inteiro
Por uma vida inteira
Sem saber exatamente o que está acontecendo

Todas as nuances de uma guerra fria
Ameaças de morte ditas em voz baixa
Com muita polidez
Longos silêncios tensos de insatisfação
Passivamente agressivos
Ou a alegre ignorância do cômodo bem-estar
Como se dormisse em Pompéia no dia do Vesúvio

As facas na cozinha cortando vegetais
Clamando por algo a mais
Mais carnívoro, intenso, verdadeiro
Ansiando por cortarem o ar afinal
E dilacerarem o elefante na sala
Sombras de um passado que se tornou presente
Lobos a uivar frustrados para o que nunca alcançam

E a segurança soturna da infelicidade ignorada
A envolver seu corpo carente de(s)amparo
E todas as tentativas de escapar ileso
Impedidas por alguma frase manipuladora
Tentando de novo da próxima vez
Um Napoleão rendido por suas próprias armas

Mas a revolução se aproxima
E há uma tonelada a ser lançada no ventilador
Tempo
Teme
Toca
Tombo
Da mais alta montanha de ilusão
Da mais tenaz tentativa de se agarrar
Ao sonho que findou
Ao que se transformou
Em algo que já não faz mais sentido
E se torna ontem
Hoje

Foto: Todd Forsgren

Sob o Domínio do Mal

“Mas vós mesmos fazeis a injustiça e fazeis o dano, e isto aos irmãos.” I Coríntios 6:8

Farto de toda essa liberdade de expressão condicional
Diga isso, escreva aquilo, não ofenda ninguém
Não diga bunda, sexo ou foda
Seja um bom menino
Enquanto nós dizemos em palavras doces
A morte dos inocentes é efeito colateral
E a culpa do trânsito é que pobre agora tem carro

Farto de toda essa hipocrisia
Morando nessa gaiola de vidro
Amordaçado com um lenço de seda
Ansiando um vômito que deve ser
Cuidadosamente acondicionado em um saquinho
De ver aquilo que mais me choca
Ser difundido abertamente

Pois eles e nós não existe
Somos todos iguais perante a lei
Mas não somos realmente, somos?
Pois o meu amor é uma forma de maldição
A cor dele o torna menos que uma pessoa
A genitália dela a torna um prejuízo
Mas o meu coração, ah, esse
Quer gritar histericamente toda essa injustiça

Controle-se! Comporte-se! Seja civilizado!
Você precisa viver em sociedade
Mas nós podemos tudo
Nós temos o metal, que não é vil
Ele vale mais que a sua vida
Nós temos a aceitação
Do deus patenteado, que indicava antes o monarca
Nós somos os porta-vozes de Deus
Dobre-se!

A travesti pode sangrar
Desde que não seja em minha calçada
O filho do pedreiro pode sonhar
Apenas em ser um bom pedreiro um dia
Aqueles pederastas podem viver
Desde que invisíveis, como deve ser
As reprodutoras devem se limitar
A cuidar das crias que pariram

Farto de aceitar
Todas essas coisas como normais
Vivendo sob o domínio do mal
Sorrindo como se estivesse feliz

Afinal o sol brilha
O pássaros cantam
A chuva cai
O que poderia estar errado?

(Enquanto isso morre um menino de 13 anos na guerra do tráfico)

Psi

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Trabalho cuidadosamente, furiosamente, e isso me enche de paz. O estático é tétrico, e não o consigo suportar. “Você precisa trabalhar isso!”, diz o psiquiatra. “Você não se aguenta não é?”, diz o amigo chato. Não sei, não sei, só sei que quero continuar assim, em movimento constante, e de preferência acelerando.

O que há de errado com as pessoas hoje em dia? Parece haver uma fórmula para tudo, um padrão para todo mundo! Einstein provavelmente teria um rótulo: TDAH. Pasteur, baixa produtividade científica. Eu ficaria louco (outro rótulo) pensando em todas as pessoas que contribuíram para a humanidade e que não se encaixam “no perfil”. Sem falar nas soluções prontas: depressão, Prozac; Euforia, Rivotril. Estresse da semana? Cerverjinha, impossível viver sem, e por que não?

É preciso ousar para viver de forma a libertar nossa criatividade e não permitir que nos droguem ou rotulem. Ou mesmo que o façam, isso não nos leve para uma instituição psiquiátrica. Muito do que está posto hoje é importante para nossa organização como sociedade, mas não vamos exagerar! A vida tem altos e baixos (todo mundo sabe disso) e com eles temos que lidar (quase ninguém sabe como fazê-lo)  sem precisar de um profissional para cada 5 minutos, ou uma droga de 8 em 8 horas!

Portanto, vou viver minha ansiedade, e curti-la! Vou me irritar e me alegrar sem verificar se o frasquinho de ansiolítico está no bolso. Quero sentir dor e sentir alegria, e a não ser que isso me leve a um tremendo desequilíbrio, quero seguir para lugares onde eu não preciso agendar um horário: a não ser que o restaurante precise de reserva.