Cúmplice

E se eu jogasse o meu cansaço sobre você
E todas as tentativas frustradas de superar alguma coisa já arraigada aqui
E se eu jogasse todo o meu cansaço sobre esse corpo subjugado
E todas as mentiras nas quais alguém um dia acreditou?

O medo cresceria em progressão geométrica
Ao me deitar e fitar a escuridão no lugar do teto
E a pressão, velha conhecida do coração reduzido a uma bomba velha
Aumentaria enquanto rumino toda essa informação inútil?

E se eu dissesse que já não sei mais o que quero
Pois aprendi a não querer para não destruir a sala, o quarto, a mente
E se eu fizesse tudo o que quero dentro de uma bolha a prova de som?
E se enfim a realidade caísse como um piano sobre nossas cabeças?

Confiança, a carta de crédito entregue sem garantias
Confiança cega, que não é vã porque sozinha se paga
Olho ao redor sabendo que não é real
Mas o que seria?

Adoeci terrivelmente de uma chaga mortal
Capaz de levar embora até quem em mim confia
Escolhi estar ao lado de quem talvez pudesse
Acreditar que havia esperança ainda que tardia

E de olhos fechados e ouvidos tapados
Caminho por uma estrada desconhecida
E já não me pergunto o que haverá adiante
Pois já não importa o amanhã, desde que o hoje tenha valido a pena

Fui tomado de amor para todo o sempre
Aquele que não dói, ao contrário do habitual
Me sei hoje mais sábio por ser um tolo
E o mundo repentinamente se abriu para mim

Porque nos damos as mãos sem nos tocarmos
E transformamos a rotina numa coisa extraordinária
Porque o resto do mundo não saberia sobreviver a um terço
Do que enfrentamos todos os dias em nós mesmos e nessa cidade

Abra os olhos, porque os sonhos são piores que o mundo
E fique em segurança em nossa cama que perfumamos de suor
Os pesadelos ainda se tornarão realidade por toda a vida
Mas a alma a seu lado jamais desertará enquanto lhe pertencer

Aborto

“Amadurecer, morrer; é quase a mesma palavra.”. Victor Hugo

Até breve!

O amanhã já vem, tedioso como sempre. Me debruço em lágrimas sobre essas lamúrias penosas, advindas dos sonhos despedaçados de glória e euforia, que já não acendem meu peito. Já não ascendem aos olhos.

Me contorço em meio ao sangue que verto por não estar mais iludido. Perdido, sem poder estancar toda essa vida que já se esvaiu em tentativas inúteis de ser ainda um menino. Mas tudo era tão bom, afinal. Tudo era perfeito nesses sonhos de amor idealizado, à medida em que se poderia manipular a realidade com uma boa dose de leviandade e sonhos impalpáveis.

Tudo era perfeito ao ponto de ser esfaqueado e não sentir. Olhar para uma pilha de cadáveres decompostos e enxergar um jardim. Sentir falta da dor lancinante que parecia ser o prazer mais orgástico, indispensável. Cansado, sem me cansar de morrer, sentindo que a vida era plena e tudo era belo em meio a uma paisagem desolada.

Até breve!

Me lembro dos seus altos e orgulhosos brados, moleque arrogante e orgulhoso. Você sempre soube tudo! Sempre soube como espalhar sua ignorância aos quatro fétidos ventos. Me lembro de sua sabedoria auto imputada, clássica crença da ignorância dos tolos. Ouvirei talvez os brados ao longe, antes que o esquecimento dê cabo de sua vida inútil.

Até breve!

Mas isso é uma mentira, não é mesmo? Não existe desejo de brevidade. Existe um adeus sem o menor sentimento. Essa parte abortada de mim deve morrer de inanição, pois encanta com palavras e voz macia. Promete a fortuna e a felicidade. Sonha tão irresponsavelmente que se joga de um precipício esperando voar.

Para onde?

Para onde nunca estive. Onde a vida é dura e injusta, e se aprende a cada dia. Para a terra dos viventes, sem pedir desculpas por fracassar em ser excepcional. Para a terra dos seres humanos. Ali a sabedoria pode ser encontrada e tomada a conta-gotas. Fora da terra prometida não serei mais enganado por promessas. Nem mesmo as minhas.

Síndrome de Estocolmo

Um olhar penetrante nos olhos de seu captor
Belas recordações desperta da tenra infância
A violência de uma indução ao que era fora do tempo
A tranquilidade de uma tempestade solar

Em Estocolmo ou em Belo Horizonte
Traumas sindrômicos o mantém parado ali
Por uma tarde inteira
Por um ano inteiro
Por uma vida inteira
Sem saber exatamente o que está acontecendo

Todas as nuances de uma guerra fria
Ameaças de morte ditas em voz baixa
Com muita polidez
Longos silêncios tensos de insatisfação
Passivamente agressivos
Ou a alegre ignorância do cômodo bem-estar
Como se dormisse em Pompéia no dia do Vesúvio

As facas na cozinha cortando vegetais
Clamando por algo a mais
Mais carnívoro, intenso, verdadeiro
Ansiando por cortarem o ar afinal
E dilacerarem o elefante na sala
Sombras de um passado que se tornou presente
Lobos a uivar frustrados para o que nunca alcançam

E a segurança soturna da infelicidade ignorada
A envolver seu corpo carente de(s)amparo
E todas as tentativas de escapar ileso
Impedidas por alguma frase manipuladora
Tentando de novo da próxima vez
Um Napoleão rendido por suas próprias armas

Mas a revolução se aproxima
E há uma tonelada a ser lançada no ventilador
Tempo
Teme
Toca
Tombo
Da mais alta montanha de ilusão
Da mais tenaz tentativa de se agarrar
Ao sonho que findou
Ao que se transformou
Em algo que já não faz mais sentido
E se torna ontem
Hoje

Foto: Todd Forsgren

Sob o Domínio do Mal

“Mas vós mesmos fazeis a injustiça e fazeis o dano, e isto aos irmãos.” I Coríntios 6:8

Farto de toda essa liberdade de expressão condicional
Diga isso, escreva aquilo, não ofenda ninguém
Não diga bunda, sexo ou foda
Seja um bom menino
Enquanto nós dizemos em palavras doces
A morte dos inocentes é efeito colateral
E a culpa do trânsito é que pobre agora tem carro

Farto de toda essa hipocrisia
Morando nessa gaiola de vidro
Amordaçado com um lenço de seda
Ansiando um vômito que deve ser
Cuidadosamente acondicionado em um saquinho
De ver aquilo que mais me choca
Ser difundido abertamente

Pois eles e nós não existe
Somos todos iguais perante a lei
Mas não somos realmente, somos?
Pois o meu amor é uma forma de maldição
A cor dele o torna menos que uma pessoa
A genitália dela a torna um prejuízo
Mas o meu coração, ah, esse
Quer gritar histericamente toda essa injustiça

Controle-se! Comporte-se! Seja civilizado!
Você precisa viver em sociedade
Mas nós podemos tudo
Nós temos o metal, que não é vil
Ele vale mais que a sua vida
Nós temos a aceitação
Do deus patenteado, que indicava antes o monarca
Nós somos os porta-vozes de Deus
Dobre-se!

A travesti pode sangrar
Desde que não seja em minha calçada
O filho do pedreiro pode sonhar
Apenas em ser um bom pedreiro um dia
Aqueles pederastas podem viver
Desde que invisíveis, como deve ser
As reprodutoras devem se limitar
A cuidar das crias que pariram

Farto de aceitar
Todas essas coisas como normais
Vivendo sob o domínio do mal
Sorrindo como se estivesse feliz

Afinal o sol brilha
O pássaros cantam
A chuva cai
O que poderia estar errado?

(Enquanto isso morre um menino de 13 anos na guerra do tráfico)

Noite

“A noite esclarece o que o dia escondeu”
Capital Inicial

E o sol se põe
Ele que ardia febrilmente no céu
Expondo as mazelas, as belezas, a aparência
Enterra-se agora entre as montanhas
Para dar lugar a um novo mal

Agora quem arde sou eu
Tudo se acelera, tudo se modifica
Desejo, medo, expectativas e espanto
A dor, oh, a doce dor de ser quem sou
Ser como sou

Iluminado pela lua ou luzes elétricas
Vampiros se mostram, mortos-vivos caminham
Metáforas apenas, em forma humana
E eu apenas lhes sorrio e dou as boas-vindas
Meus iguais, expostos pela escuridão

Somente a escuridão é capaz de revelar
Segredos da mente, aquilo que se esconde
Como se mergulhasse no mar para enxergar
Como se descesse à sepultura para saber

Os gritos são outros, os medos são os mesmos
Então durma bem, meu amor, durma sem medo
Afinal, nada mudou, nenhuma ameaça é real
Nem todos os gatos são gatos ou ratos ou leões

Agora você vê
Feche os olhos
Agora você vê

Citar

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” John Donne

Não consigo evitar: nesses tempos de redes sociais, cada vez fica mais claro para mim o tamanho da necessidade do ser humano de não estar ilhado, como disse o poeta. Mas mesmo com toda essa tecnologia, esse esforço, me parece que as pessoas nunca estiveram tão distantes. Em um tempo em que a comunicação à distância se dava por cartas, certamente eram mais frequentes os encontros em cafés, correio ou bares. As visitas, mais constantes. Gosto de uma conversa informal com um amigo para consolá-lo de uma decepção, ou comemorar uma vitória. Mas meu coração salta mesmo, quando a cabeça está no meu ombro ou os braços apertando bem forte. Tem coisas que a tecnologia nos facilita em muito, admito. Mas estar perto de você, amigo, não tem paralelo.