Para calar o silêncio

Quando ousei dizer o que gritava em silêncio
O medo e o tempo e tantos outros agentes da paralisia
Pressionavam para que eu não parisse
Esse horrendo feto deformado e insuspeito

Noites e dias de insônia e pânico
O horror da inércia rastejante vestida de costume
Meu tenebroso fantasma a rondar
E as circunstâncias a sussurrar: Para todo o sempre!

Os santos se calaram de indignada estupefação
Os demônios se calaram por tédio sem fim
Os homens comuns nem deram confiança
E o resto do universo se moveu quase imperceptivelmente

Pois que os santos sejam empalados violentamente
E os demônios fujam aos berros em línguas de fogo
E os homens e o universo se fodam
Junto com fantasmas e fetos deformados e toda essa nojeira

Pois meu grito será impossível de ser esquecido

E machucará os ouvidos de muitos
E trará sobre mim a fúria dos conformistas
E será angustiante e longo e muito alto
Porquanto não mais sofrerei calado em minha solidão superlotada

Pois a verdade é uma coisa estranha
Muitos dizem que a desejam, mas na verdade a temem
E se você a alcançou, não tente aprisioná-la
Pois será como um gato enfurecido encurralado dentro do peito

Quando ousei dizer o que gritava em silêncio
A paralisia se foi com o medo e o tempo voltou a passar
E a feia e deformada verdade se dissolveu em remédio para a alma
E toda a dor desse momento redundou em paz depois do choque

Não há mais santos, demônios, homens ou o universo
Apenas a minha realidade, sem julgamentos, angústia ou gritos abafados
Pois omissões e segredos não sobrevivem na luz
E não mais alimentarão os monstros que um dia ali habitaram

Pois ao abrir da boca os sussurros doentios se calaram para sempre